SALAZAR E A I REPÚBLICA – 28 por José Brandão

1915 – Salazar e os amigos

Em Coimbra, a vida de Salazar era levada de forma metódica. Conforme escreve Franco Nogueira: «Manhãs de estudo ou a dar explicações, almoço com os coabitantes padre Cerejeira e o irmão deste, Dr. Júlio Cerejeira. Seguia-se a habitual saída para dar lições particulares, ir até à biblioteca, às livrarias ou a casa dos Serras e Silva, dos Brito e Cunha, de José Alberto Reis ou de outros mestres. Regressava a casa ao fim da tarde para o jantar com os seus três amigos e raramente jantavam sós. Contavam normalmente com a companhia de outros amigos, sendo o mais assíduo Mário de Figueiredo. José Nosolini não deixava de ir jantar aos Grilos sempre que ia a Coimbra.

Outros convidados eram Fezas Vital, professor, Mendes dos Remédios, professor de literatura portuguesa; Manuel Rodrigues, Diogo Pacheco de Amorim, dirigente do Centro Académico de Democracia Cristã, o padre Carneiro de Mesquita quando de vista a Coimbra, Joaquim do Amaral e seu irmão João do Amaral, este último entregue à luta do Integralismo Lusitano. Nunes Mexia, José António Marques, os irmãos Dinis da Fonseca, sempre que na cidade, eram presença nos jantares dos Grilos.».*

 *Franco Nogueira, ob. cit., pp. 146 e 147.

 De entre os amigos mais chegados, Salazar tinha especial apreço – como já se viu – por Gonçalves Cerejeira e de modo diferente por Mário de Figueiredo.

Do primeiro vinha uma estreiteza interior que o intimava a renegar aos prazeres dos bens terrenos e a devotar-se de alma e coração aos princípios da santidade, senão mesmo da suprema castidade.

Com o segundo construía uma identidade de bases políticas que haveria de os ligar até aos anos do Estado Novo.

Exigente com as amizades, Salazar não era homem de trato fácil, pelo menos com aqueles por quem não nutria qualquer simpatia. Quando parecia estar de acordo e dizia que sim, com desembaraço acabava por proceder ao contrário do que esperavam os que julgavam tê-lo convencido.

Forte nas suas convicções, António de Oliveira Salazar não gastava o seu tempo em polémicas para as quais no seu entender não via razão.

Era um homem de facto irredutível. Dizia com mais facilidade não do que dizia sim.

 Voltando aos tempos da I República…

Domingo, 13 de Junho de 1915. Realizam-se eleições legislativas onde os católicos apresentam candidatos em alguns círculos eleitorais, conseguindo fazer eleger um deputado (António de Castro Meireles, futuro bispo do Porto, pelo círculo de Oliveira de Azeméis) e um senador (António José da Silva Gonçalves, também sacerdote, por Braga).

Um mês após ser eleito o deputado católico Castro Meireles levanta no Parlamento a questão do desterro por dois meses, ordenado pelo Ministro da Justiça contra os párocos de Esmoriz e S. Vicente (Ovar), por uso indevido de vestes talares fora do exercício de actos de culto.

Entretanto, a publicação de uma nova lei eleitoral, concede o direito de voto a militares no activo, mantendo a exclusão de analfabetos. Verifica-se um decréscimo nos círculos eleitorais.

 Pelo Outono de 1915  regressou Salazar a Coimbra. Abandonara a capa-e-batina. Entretanto, continuava cada vez mais estreita a relação com Cerejeira, conforme nos conta Franco Nogueira: «No casarão dos Grilos organizava-se a vida em comum. E discutiam os graves acontecimentos que o país vivia, a agitação política, os governos de Lisboa. Então Salazar era mais circunspecto, escutava mais do que falava. Tinha uma frase de síntese, que repetia: «Isto está pavoroso! Isto está pavoroso!» Mas as conversas não se prolongavam sobre o tarde: antes da meia-noite retiravam-se os convidados. Depois, o padre Cerejeira e Salazar rezavam o terço em comum, no grande salão. Pela uma hora da manhã, deitavam-se.

Estudava agora intensamente o padre Cerejeira: e pensava em alcançar o grau de doutor em letras. Escolhera mesmo já o tema da sua dissertação: Clenardo e o renascimento em Portugal. Oliveira Salazar, pelo seu lado, fixara-se também na matéria do volume que tinha de acompanhar, como título científico, o seu requerimento de concurso ao magistério. Ocupar-se-ia da «Questão Cerealífera. O Trigo». E era forçado a um trabalho veloz. Porque, com efeito, a Universidade anunciava em edital, datado de 27 de Novembro de 1915, que estava aberto concurso por noventa dias para o preenchimento de lugares de professor.» *

 *Franco Nogueira, ob. cit., p. 147.

 O tempo passa e Salazar vai vendo dispersar grande parte dos seus amigos mais íntimos. No seu círculo de amigos e companheiros sucederam alterações profundas. Cerejeira trocara o curso de Direito pelo de Letras, Carneiro de Mesquita ordenado sacerdote abandonou Coimbra, José Nosolini após formatura estabeleceu-se no Porto como advogado, os irmãos Dinis da Fonseca assumiam cargos públicos e Alberto de Monsaraz dedicava-se à causa do Integralismo Lusitano.

Alberto de Monsaraz  que no seu programa integralista «monarquia orgânica, tradicionalista, anti-parlamentar» defendia: «Quando à nossa causa tiver concorrido o esforço de todas as competências que neste país estão connosco, será então oportuno tornar conhecido o plano completo e sistemático de acção e estudo que constituirá toda a razão de ser de uma orientação política nacional que já agora podemos denominar Integralismo Lusitano».

No meio dos que ficavam perto de Salazar restavam Mário de Figueiredo e Mário Pais de Sousa que estavam a terminar os respectivos cursos.

Mário de Figueiredo haveria de o acompanhar durante muitos e muitos anos. No Estado Novo seria seu companheiro e homem de confiança.

Leave a Reply