1917 – Salazar professor em Coimbra
Em Conselho da Faculdade é aprovado o texto de Salazar, «Questão Cerealífera. O Trigo», apresentado no ano anterior para admissão ao concurso para assistente. Neste concurso para assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Salazar havia entregue uma outra dissertação: «O Ágio do Ouro. Sua Natureza e suas Causas (1891-1915)».
Em «O Ágio de Ouro» pode ler-se nas págs. 78-79:
«Parece-nos que a ficção constitucional, a ficção-soberania do povo, a ficção-maioria parlamentar representando a vontade da nação, estavam – para nós ao menos, sem preocupações políticas – abertamente e insofismavelmente demonstradas. Porque ao lado da enorme maioria que pelo trabalho tratava da vida, as camarilhas políticas também na política tratavam da sua, e é provável, senão mesmo muito certo, que os interesses dos partidos se distinguiam bem dos superiores interesses do País. Examinando durante anos as promessas dos programas e os actos dos governos, comparando os discursos e os factos, conhecendo os dessous de muitas campanhas pretensamente moralizadoras, empreendidas pelos inimigos das facções a derrubar para outros poderem subir, a Nação afinal podia revoltar-se e não se revoltou; separou-se da crosta política, tornou-se céptica, levando vida à parte, absolutamente insensível aos repetidos protestos de reforma nos processos da governação pública; desdenhou da realeza que o voto lhe conferia, e mediu-os a todos, aos políticos, pela baixa craveira do seu absoluto desprezo.».
(…)
«Não sabemos se haverá ingenuidade em desejar moral na política e se não terá havido em qualquer nação governantes em que o carácter e a dignidade pessoal tenham julgado de seu dever entrar também na vida pública, regrando processos de administração.
Não sabemos.
O que sabemos é que a desordem e imoralidade políticas têm um efeito corrosivo na alma das nações. E o abastardamento do carácter nacional não pode deixar de influir no desenvolvimento e progresso dum povo, sob qualquer aspecto que o queiramos considerar.»
Salazar preparara bem as provas de acesso ao professorado e a 31 de Março de 1917 é aprovado sem bolas pretas no concurso para professor.
Em 28 de Abril toma posse do cargo de assistente de ciências económicas.
Apesar de afastado da agitação política, não lhe passava despercebido o ambiente
que então se vivia.
Estava presente sempre que possível nas comemorações do Centro Académico de
Democracia Cristã. Não dispensava a conversa de fim de dia após o jantar com o seu
amigo padre Cerejeira a quem numa noite terá confidenciado: «Sabes? Sinto que a
minha vocação é a de ser Primeiro-Ministro de um rei absoluto».
Domingo, 13 de Maio de 1917. Alegadas aparições de Nossa Senhora a três pastorinhos na Cova da Iria. Estas repetir-se-iam ao longo dos meses, excepto por uma vez, até 13 de Outubro de 1917. O administrador do concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, impediu que os pastorinhos estivessem na Cova da Iria, a 13 de Agosto de 1917. Este republicano pretendia evitar o que considerava um fenómeno perigoso para a República, considerando mais tarde, em 1924, que Fátima fora uma etapa da «reacção».
Durante o terceiro governo de Afonso Costa, em Agosto de 1917 recrudesce novamente a questão religiosa. Alexandre Braga, na qualidade de Ministro da Justiça, assina o decreto de expulsão do bispo do Porto da cidade e concelhos limítrofes. Esta medida tem a oposição do mundo católico em geral e, no Parlamento, Castro Meireles, deputado católico, levanta esta questão.
Ainda, em Agosto de 1917, constituiu-se em Braga, o Centro Católico Português. Não era propriamente um partido, com propósitos de governar, mas uma organização com o fim de intervir na vida nacional no sentido de defender o Catolicismo. Uma das formas de intervenção era o parlamento. A sua primeira direcção era composta por Alberto Pinheiro Torres, Diogo Pacheco de Amorim e José Fernandes de Sousa (pseudónimo Nemo). Em 1915, antes da sua constituição formal, já tinha logrado obter representação parlamentar.
A 20 de Outubro de 1917, O Século publicou o programa da mais recente formação política, o Partido Centrista Português. Conta com a liderança de Egas Moniz e visa agrupar evolucionistas que abandonaram o partido e monárquicos da dissidência progressista. Trata-se de um partido republicano moderado, nem «radical» nem «reaccionário», conforme explicitado no seu programa, em que se afirmam «liberais».
Durante este ano, e até 1921, Salazar foi várias vezes candidato a deputado sem conseguir ser eleito. Ao mesmo tempo que preparava as suas lições e escrevia trabalhos relativos a matérias da sua actividade docente, colaborava com o Círculo Católico. O seu novo estatuto de professor, mesmo quando temporariamente precário, trouxe-lhe uma melhoria visível da sua situação material.
Oliveira Salazar, agora mais desafogado, ajudava a família, quer financeiramente quer na melhoria das condições. Arrendou ao Estado parte da nova casa do Vimieiro para aí funcionar a escola primária de que sua irmã Marta era professora.
Ainda em 1917, é autor de três trabalhos que são:
– Prefácio a «Tratado de Economia Política», obra póstuma do Professor Doutor Marnoco e Sousa, vol. I – Coimbra, 1917.
– Sobre que valor incide a contribuição de registo por título oneroso – Artigo no «Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra», n.º 28, Coimbra, 1917, págs. 405 a 431.
– Anotação de «jurisprudência crítica» – No «Boletim da Faculdade de Direito da Universidade ele Coimbra», n.º 29 e 30, Coimbra, 1917, págs. 531 a 565.
Segunda-feira, 24 de Dezembro. Numa data carregada de simbolismo para o mundo católico, é publicado o decreto n.º 3687, declarando sem efeito a pena de interdição de residência até agora imposta a ministros da religião, por virtude de processos disciplinares. Trata-se do primeiro passo de aproximação com a Igreja Católica.
Sábado, 29 de Dezembro. A portaria n.º 1882, determina que não seja permitido o reaparecimento de jornais suspensos nem a fundação de novos sem a licença do Ministro do Interior, bem como proibindo a divulgação de manifestos, moções e deliberações do Partido Democrático.
