Site icon A Viagem dos Argonautas

PARAR O CICLO DA VIOLÊNCIA por clara castilho

É preciso compreender a violência doméstica e as suas dinâmicas para melhor se poder intervir, ora junto da vítima, ora junto do agressor, ou mesmo junto da comunidade/sociedade. O Gabinete de Estudos e Atendimento a Agressores e Vítimas da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto informou que está a apoiar mais agressores do que vítimas, incluindo menores com historial de ofensas sexuais. A intervenção com agressores pode ocorrer ao nível individual, de casal, familiar ou em grupo.

A sua directora, Celina Manita afirmou, em entrevista à Lusa: “No início tínhamos 80% de vítimas e 20% de agressores no atendimento, mas hoje os agressores cifram-se em 70% e as vítimas em 30%”. São atendidos “adultos violadores e abusadores sexuais de crianças”, mas também começam a chegar ao serviço alguns jovens e até “menores de idade, que já são ofensores sexuais”.

 

Os agressores que mais chegam ao gabinete são, na maioria, encaminhados pelo sistema judicial, como os tribunais, mas também das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens. Nestes casos, os agressores não sentem o seu comportamento como problemático. Logo, a necessidade de o alterar está ausente, o que dificulta o trabalho a desenvolver.

Neste Gabinete utilizam-se os programas psico-educacionais; e os modelos psicoterapêuticos. A intervenção em agressores implica também uma intervenção na educação comunitária, na educação para a cidadania e para os direitos/igualdade. “De pequenino se torce o pepino” e se só existirem modelos violentos, o que se há-de esperar?

Numa entrevista  já com uns anos, ao Público (04/11/2001), Celina Manita afirmava:  “A primeira dificuldade é conseguir atrair os agressores para estas consultas e, mais ainda, mantê-los num programa de acompanhamento. “Há um conjunto de regras, os chamados contratos terapêuticos, que o voluntário tem de aceitar à partida. A primeira cláusula é parar com a violência – este também é um serviço de protecção da vítima”.

 “Tentamos que o agressor comece por perceber a dimensão das consequências da sua atitude e que assuma os seus comportamentos agressivos, as consequências destes e, de uma forma geral, analise a sua própria história de vida”. Utilizam-se as técnicas narrativas, a exemplo do que se faz com a vítima, de modo a promover alterações no seu comportamento e a reestruturar as narrativas existenciais e os sentidos de cada um. Trabalham-se as técnicas de autocontrolo e a questão do poder. Porque, afinal, na maior parte dos casos, “o agressor não tem perturbações graves, são pessoas perfeitamente integradas e que não agem dessa forma noutros contextos ou noutras relações interpessoais”. E a “necessidade de dominação e controlo [é o que] está quase sempre em causa”.

Convém não esquecer os custos da violência doméstica. São eles económicos:  urgências hospitalares, internamentos, meios  complementares de diagnóstico, atendimento numa instituição de apoio a vítimas,  alojamento, apoio judiciário, faltas ao emprego…Mas também os pessoais, a nível das vítimas: psicológicos, relacionais, sociais (medo, sofrimento, depressão, doenças psicossomáticas, mudanças de casa e de comunidade, mudança de escola dos filhos…

E vendo as consequências no futuro, as mulheres vítimas de violência podem tornar-se elas abusivas face aos seus filhos e as próprias crianças podem também vir a manifestar esta forma de comportamento. Queremos parar o ciclo?

Exit mobile version