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EDITORIAL: O PAPA REFORMOU-SE, VIVA O PAPA

Diário de Bordo - II

Bento XVI resolveu reformar-se, e discute-se porque o terá feito.  É pouco provável que o tenha feito por cansaço ou por zanga; esse tipo de situações não se encaixam na prática tradicional da igreja católica romana (ICR). Tecem-se teorias sobre se terá sido influenciado pela situação financeira da igreja, ou por causa do problema da pedofilia. Nenhum destes problemas, só por si, chega para explicar a inesperada reforma.  É do conhecimento geral que a ICR é um potentado económico, e o cardeal Ratzinger conhecia essa situação de perto. Não deve ter sido apanhado de surpresa. Fala-se em abusos de confiança, mas não consta que isso o atingisse pessoalmente. Quanto à pedofilia e  aos abusos sexuais em geral, o problema não é de uma pessoa, mas da instituição em geral, por que o erro de abafar as situações foi da responsabilidade de muitos e não de um só.

Mais do que tentar perceber  as motivações de Ratzinger, que o teriam levado a resignar, será de reflectir até que ponto este acto traduzirá uma inflexão na prática da ICR. O Papa tem sido apresentado como uma espécie de representante de Deus na terra.  Como alguém investido da autoridade divina. Também por isso era dado assente que o cargo era vitalício. Passará a Igreja a considerar a posição do Papa de uma maneira mais terrena?

A ICR é a congregação religiosa que mais fiéis conta no mundo, se considerarmos que os muçulmanos, mais numerosos que os católicos, tal como os cristãos, estão divididos em sunitas, xiitas e outros grupos menores. Tem um enorme peso político e económico. Sem dúvida que os problemas daí resultantes não escapam aos seus líderes. É óbvio que pensam que ICR não pode continuar centrada na Europa, como que dando continuidade a uma supremacia ultrapassada. Os papas deixaram de ser exclusivamente italianos, desde João Paulo II. Virá agora talvez um papa brasileiro ou norte-americano. E a função papal terá de ser encarada de outra maneira, mais terrena, para equilibrar diferentes maneiras de ser e de conviver com diferentes culturas.

Até que ponto a Igreja será permeável a outras evoluções, de carácter progressista, é que é o verdadeiro problema. A ICR tem sido de um imobilismo enorme em problemas fundamentais. O reconhecimento da igualdade de géneros continua longe, ao que tudo indica. A atitude perante a sexualidade também não tem evoluído.  É duvidoso mesmo que seja uma possibilidade a curto prazo. E também parece longe uma posição firme contra as injustiças sociais, que terá de passar pelo reconhecimento do primado da solidariedade sobre a caridade, por um envolvimento significativo dos vastos recursos da ICR no combate à pobreza, e pela  aceitação de que é necessário limitar o direito de propriedade privada, pedra fundamental para enfrentar o fenómeno da concentração capitalista.

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