Site icon A Viagem dos Argonautas

CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 31 – por José Brandão

D. AFONSO VI – O VITORIOSO

(reinou de 1656 a 1683)

«Regência da rainha D. Luísa — Incapacidade de el-rei

Deixava D. João IV uma herança politica enredada de dificuldades e perigos, cuja visão devia tornar-lhe amargos os últimos dias da vida. Bem conhecia el-rei as dificuldades e perigos da guerra, e não menos do que isso devia atormentá-lo a incapacidade do sucessor, já havida por irremediável. Uma única esperança podia aliviá-lo: a provada inteligência e senso politico da rainha, a quem, por disposição testamentária, incumbiu a regência do reino durante a menoridade de D. Afonso, herdeiro do trono.

A primeira dificuldade que surgiu, quase sem esperança de remédio, era a incapacidade do novo monarca, um anormal de corpo e de espírito. Em consequência de moléstia que sofrera em mais tenra idade, ficara achacado do lado direito, e esta lesão afectou-lhe o entendimento. Logo depois da morte de D. João IV, alguns conselheiros propuseram discretamente à rainha que adiasse o juramento do novo rei até se averiguar se a incapacidade era curável.

A D. Luísa pareceu temeridade semelhante resolução, que podia tornar-se suspeitosa e ser pretexto de dissensões e até de guerra civil. D. Afonso foi jurado a 15 de Novembro de 1656, na idade de treze anos.

[…]

A mocidade de D. Afonso VI

Por mais varonil que fosse o ânimo da rainha regente, não poderia deixar de sentir-se profundamente abalado com as provações que tão cruelmente o atingiram, acrescentando-se às dificuldades e perigos da guerra os cuidados que inspirava o jovem, rei por seus desatinos mórbidos.

Aos três ou quatro anos de idade sofreu uma «febre maligna», após a qual sobreveio um ataque de paralisia que lhe tomou todo o lado direito, da cabeça aos pés. Com o tempo foi melhorando, de modo que aos dezasseis anos, posto que o mal se não tivesse desvanecido completamente, já podia montar a cavalo, governar a rédea e fazer uso do estribo. Não tardaram, porém, a aparecer indícios, cada vez mais claros, de que a lesão do corpo lhe causara desequilíbrios no espírito. A indocilidade, que a princípio poderia explicar-se pela indulgência aplicada a uma criança doente, começou a revestir aspectos de braveza e de crueldade.

Tal era o estado de D. Afonso quando herdou o trono, aos treze anos de idade, e naquela fase da vida era bem de recear que o mal se agravasse, tornando-se mais desmedidas as desenvolturas que procediam da doença. A rainha D. Luísa e os seus conselheiros tomaram os mais escrupulosos cuidados na educação de el-rei, procurando que a disciplina educativa corrigisse os defeitos de que o infeliz doente não tinha culpa. A experiência, porém, foi mostrando que todos os esforços eram baldados; em vez de se revelarem os frutos da educação, manifestavam-se, pelo contrário, baixos instintos e tendências degradantes.

Às horas da sesta ia el-rei entreter-se nos corredores do paço, cujas janelas davam para o pátio da Capela Real. Ali se juntavam àquela hora rapazes a jogar a pedrada, espectáculo tanto do agrado de D. Afonso, que favorecia algum dos bandos ou por ele tomava partido. Nas tendas do claustro que cercavam o pátio havia mercadores, e entre estes um moço de nome António de Conti, que nascera em Portugal de pais italianos. Conti, para atrair a benevolência régia, auxiliava e aplaudia o bando por que el-rei se interessava, e tão bem se havia que D. Afonso começou a chamá-lo logo que chegava à janela e ia falar-lhe à portaria das damas. Para melhor cativar o ânimo de el-rei, Conti começou a dar-lhe fundas de seda, facas douradas e outras bugiarias que encantam os rapazes.

Chegou o trato de D. Afonso com António de Conti a manifesta indignidade, pelo que se ordenou ao italiano, que não fosse ao paço. Ele começou a acautelar-se, mas não se abstinha de todo, e el-rei concebeu tal paixão que entenderam por melhor condescender com ele, tolerando Conti.

Num pátio onde el-rei tomava as lições de equitação, diz um contemporâneo, começou ele a introduzir, nas horas mais solitárias, a António de Conti, seus irmãos e outros moços, com alguns mouros e negros da estrebaria. Entre esta infame gente eram impuras as conversações, as palavras obscenas, perniciosos os costumes, violentos e criminosos os exercícios, nos quais se achava el-rei, envolvendo-se promiscuamente com os que lutavam, lançavam a barra e jogavam o pugilato.

Exit mobile version