CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 20 – por José Brandão

                     

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D. AFONSO V – O AFRICANO

 (reinou de 1438 a 1481)

 

«Lutas pela regência»

Aclamado el-rei D. Afonso V em Tomar, onde falecera seu pai, abriu-se o testamento de D. Duarte. Designava ele a rainha por tutora de seus filhos e regente na menoridade do príncipe, «sem assistência nem ajuda doutra alguma pessoa».

D. Leonor não via com bons olhos seus cunhados, e parece que era maior a indisposição com D. Pedro. Este não pôde disfarçar o seu descontentamento das disposições testamentárias do irmão. Murmúrios, estranhezas, censuras à rainha, partiam manifestamente dos parciais do infante, que aspirava à regência, e tanto que não consta que D. Pedro fizesse a menor diligência por serenar os ânimos.

Da censura passou-se à audácia, quase diríamos ao despejo. Certos parciais do infante foram aconselhar a D. Leonor que deixasse voluntariamente o governo antes que a forçassem a isso; que ela estava na regência contra vontade de todo o reino; que os infantes seus cunhados, todos príncipes «de muita prudência, de grande poder e autoridade, queridos e amados do reino, e naturais dele, a cada um dos quais direitamente pertencia o governo e administração», teriam por quebra de suas pessoas sujeitarem a uma mulher, demais a mais estrangeira; nem era possível «prevalecer contra tão poderosos príncipes», e não era el-rei, mas aos três estados do reino que pertencia a eleição do regente.

Nestes termos audaciosos a mandavam embora.

Nas Cortes que se reuniram logo em Torres Novas, os parciais do infante levantaram a questão, que os nobres não deixaram prosseguir. D. Pedro, antipático entre a classe nobre, procurava apoio nas camadas populares.

A rainha, para atalhar discórdias, propôs a seu cunhado um acordo: ela ficaria com o governo e administração da fazenda e a educação dos filhos; D. Pedro, com o regimento da justiça e o título de defensor do reino. O infante declarou aceitar, mas as discórdias continuaram, o que só pode atribuir-se à duplicidade de D. Pedro. D. Henrique estabeleceu para acordo nova fórmula, mas esta não agradou a ninguém, posto que a assinassem para evitar motins previstos. A questão, finalmente azedou-se quando a rainha, escandalizada do procedimento de D. Pedro, se mostrou disposta a evitar o casamento do jovem rei com a filha do infante, conforme se tratara por indicação de D. Duarte.

Em Lisboa levantaram-se muitos tumultos em favor do infante soprados pelas pessoas que lhe eram afeiçoadas. D. Pedro já não ocultava as suas ambições, favorecidas também pelo infante D. João e por D. Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches. A câmara de Lisboa acordou em que nas próximas cortes se desse a regência a D. Pedro.

As cortes estavam efectivamente convocadas para Lisboa, sem consentimento da rainha. Ao reunirem-se os procuradores, em 10 de Dezembro de 1439, o infante D. João mandou ler pelo Dr. Diogo Afonso Mangancha «uma arenga grande e bem dita», na qual se propunha a eleição de D. Pedro como regente do reino. Os procuradores aprovaram, e na primeira sessão de cortes, em 10 de Janeiro de 1440, confirmaram a eleição. Não eram baldadas as intrigas espalhadas em todo o reino.

Regência de D. Pedro

Manifestamente não procedia D. Pedro com lisura. Não se lhe descobre um acto de isenção, nem propósitos de concórdia, como se as suas ambições a tudo sobrelevassem. Depois de tirar a regência a D. Leonor, privou-a dos filhos, pretextando-se os inconvenientes de dar a um rei educação feminina. Parecia que nele os despeitos se convertiam em rancor. Daí a suspeitas que se não vê justificada, mas que se lançou, talvez menos como receio do que como afronta vingadora, de que ele pretendesse desfazer-se dos sobrinhos para empunhar o ceptro.

A rainha a tudo se submeteu, porque não pôde reagir. Queixava-se amargamente, não só em Portugal, como a seus irmãos, os infantes de Aragão, a rainha de Castela e o rei de Navarra. Vendo-se, por cima de tudo, espionada por D. Pedro, refugiou-se no Crato, ao abrigo do prior dos Hospitalários. Contava com o apoio do infante D. Afonso, conde de Barcelos, e com muitos nobres que a este seguiam. El-rei de Castela mandava pedir por uma embaixada que dessem a D. Leonor livre passagem para Castela e lhe restituíssem o dote. D. Pedro, ou por evitar o desaire, ou pelo receio de intervenção mais enérgica deu respostas escusatórias e escreveu à rainha em termos de conciliação.

Estando a rainha no Crato, o regente anunciou que ia submeter o prior pela força das armas. A rainha retirou-se a caminho de Castela, partindo do Crato para Albuquerque (29 de Dezembro de 1440), quando as forças de D. Pedro estavam próximas.

Restava submeter o infante D. Afonso, conde de Barcelos, que tomara sempre o partido da rainha, e de facto estava exercendo toda a autoridade nas terras de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Estavam prestes a vir às mãos as tropas de D. Pedro e D. Afonso, nas margens do Douro, junto a Mesão Frio, quando o conde de Ourém, filho do conde de Barcelos, conseguiu reconciliá-los.

De acordo entre D. Pedro, D. Henrique e D. Afonso, tratou-se logo do casamento de el-rei com a filha do regente (1441).

Não tardou que fermentassem novos ódios. Nos fins de 1442, D. Afonso, conde de Barcelos, pediu e obteve do regente o senhorio e ducado de Bragança. Em Janeiro do ano seguinte, falecendo D. Diogo, filho do infante D. João, e de pouco provido na dignidade de condestável, pretendeu este cargo o conde de Ourém, filho do duque de Bragança, alegando que lhe pertencia como neto mais velho de Nun’Alvares que o recebera para si e para a sua casa. D. Pedro escusou-se, dizendo que o cargo de condestável estava já dado a seu filho, também D. Pedro. O conde de Ourém escandalizou-se tanto com a recusa que não mais voltou à corte enquanto durou a regência.

Aproximando-se el-rei dos catorze anos, convocou o regente cortes para Janeiro de 1446 e perante elas entregou a D. Afonso o governo do reino. Era satisfação dada aos inimigos de D. Pedro, porém simples disfarce. Com efeito, em reunião celebrada três dias depois, D. Pedro e D. Henrique fizeram que D. Afonso V declarasse, pela boca do Dr. Diogo Mangancha, que precisava de alguém que o auxiliasse e encaminhasse no governo e que para o efeito ninguém era mais conveniente que D. Pedro. Finalmente, em princípios de 1448, D. Afonso V, por conselhos e instâncias do duque de Bragança, do conde de Ourém, do arcebispo de Lisboa e de muitos nobres, dispensou os serviços do tio e tomou o governo em suas mãos.

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