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CHIPRE: O QUE PODE ACONTECER – 2 – por Ventura Leite

Como se vê, o resgate de 10 000 milhões de € a Chipre é, em termos proporcionais, gigantesco, o que dá uma ideia do descalabro financeiro naquele pequeno país.

Quando a UE aprovou os termos do resgate, muito provavelmente terá tido a colaboração , se não mesmo a sugestão, do próprio governo cipriota, para a solução de confisco dos depósitos como forma expedita de obter os 5 800 milhões de € da responsabilidade do governo. Recorrer a redução de salários ou imposos seria provavelmente impraticável ou demorado. Não nos esqueçamos de que o governo português recorreu ao corte de salários na função pública, corte de subsídios, aumento do IVA, do IRS, etc, tudo formas expeditas de obter receitas. Fico, por isso, surpreendido com a indignação com a UE quando o nosso governo recorreu a expedientes tão criticáveis como o escolhido para o caso de Chipre.

Mas parece-me que muita gente se esquece dos enormes depósitos de entidades estrangeiras em Chipre. No dia 6 de Março último o presidente do BCE, Mario Draghi, dizia numa conferência de imprensa, com a companhia do seu Vice, Victor Constâncio, que era preciso não esquecer que os bancos cipriotas tinham muitos depósitos que correspondiam a lavagem de dinheiro. Na verdade, há quem se interrogue porque razão muitos capitais russos permanceiam em bancos cipriotas quando os ratings dos bancos daquele país foram descendo até ao nível E, o mais baixo!! Como se explica isto, quando os mercados puniram os países e empresas que registaram uma degradação do seu rating, inlcuindo empresas e bancos portugueses!! A única explicação é que Chipre era, mesmo assim, um sítio adequado para aquele tipo de capitais. Como podemos então estar preocupados que estes depositantes vejam ser-lhes aplicada uma taxa de 9,9% de redução para ajudar os bancos e os restantes depositantes? Não entendo a lógica, quando em Portugal os portugueses não aceitaram bem terem que contribuir para o resgate de depositantes no BPN que colocaram os seus recursos neste banco à procura de ganhos especulativos. Que estranha solidariedade para com os russos!!! Por outro lado, ninguém manifestou preocupação com os credores da Islândia!

Eu compreenderia que se ouvissem vozes a dizer que os depositantes externos que se lixassem, mas que os nacionais teriam que ser poupados!! Isso faria sentido! Poderia chamar-se solidariedade europeia.

O que vai acontecer nos próximos tempos? É um exercício obviamente difícil, mas posso especular.

O euro vai colapsar a partir deste caso? Não vejo isso como possível. O montante em causa não constitui problema, mesmo que tenha que ser aumentado diante de uma corrida incontrolável aos bancos por parte dos depositantes. Mas espero que quando reabrirem os bancos na próxima segunda -feira estejam em aplicação os necessários controlos de capitais para evitar a fuga maciça de capitais, e que sejam estabelecidos limites ao levantamento dos saldos de cada conta. A corrida aos bancos pode causar um momento de tensão e expectativa nos mercados financeiros na europa, mas espero que o BCE tenha planos para isso.

Este expediente vai constituir um precedente para outras situações semelhantes noutros países? Fora de questão. Esta situação só tem sentido num país sem sistema fiscal capaz de responder, isto é, num paraíso fiscal. Mas não em nenhum outro sistema bancário e fiscal na Europa.

Este procedimento vai abalar a confiança dos depositantes nos bancos noutros países? Não creio. Dentro de algum tempo as histórias do colapso deste bancos vão começar a ser conhecidas e provavelmente as medidas agora adoptadas serão ate consideradas suaves.

Vai haver fuga de capitais da Europa? De chipre naturalmente que sim. Mas da Europa só com base na recesão recessão económica, que aumente as dúvidas sobre a evoluçãoo das dívidas soberanas.

Chipre vai ter que sair do Euro?

Este resgate foi concedido aos bancos e não ao Estado cipriota, porque ele não podia comportar um resgate financeiro tão pesado. Os bancos apoiados passam informalmente para a propriedade do ESM, porque os bancos estão falidos sem este resgate.

Mas isto não pode ser um motivo para se dizer que o país tenha que sair do Euro. Contudo, a governação de Chipre será fortíssimamente condicionada e supervisionada , porque não poderá continuar a depender de um sistema bancário tão perigosamente disfuncional e irresponsável como o seu. E certo que o haircut suportado pelos bancos cipriotas relativamente aos seus créditos sobre a Grécia contribuiram para a desgraça, embora esta tenha que ser assacada à irresponsabilidade de quem emprestou.

A curto e médio prazo vida dos cipriotas irá mudar e muito. O seu futuro não vai parecer-se com a evolução das últimas duas décadas.

Colocar Chipre fora do Euro seria, no entanto, um sinal estranho dentro da UE, um sinal de desintegração, que ninguém quererá dar. Poderá é ser o próprio Chipre a pedir para sair, assumindo a falência da sua banca, como fez a Islândia, o que implicaria a saída do Euro. Chipre poderá inspirar-se na islândia que já começou a crescer, e assumir as consequncias de um bloqueio imediato do mercado financeiro, mas pensando contornar esse problema através dos enormes recurso recentemente descobertos de gás natural, de que a Europa é carente.

Portanto, não vejo aqui um drama que abale o Euro, ou o projecto europeu. O que vejo é um acontecimento que mostra várias coisas:

– O que é um país em modo de funcionamento de casino ( Islândia e Chipre), e no que dá a ganância sem a intervenção da regulação, e uma sociedade sem uma classe política à altura. – A fragilidade de um continente a querer construir uma unidade política , económica e financeira, em que os líderes de cada nação só invocam a Europa quando estão em situação de aflição , mas opõem-se a qualquer processo que signifique limitações de soberania. Ora sem uma governação europeia como podem ser evitados estados casino, ou governos irresponsáveis? Os europeus só sabem o valor da união depois da tragédia.

Como disse uma vez o diplomata ABBA EBAN, os homens e as nações tendem a agir com sabedoria , depois de esgotadas as alternativas.

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