Hoje ( sexta-feira, 29 de Março), os bancos reabriram em Chipre, e como era expectável houve filas de pessoas zangadas a quererem levantar dinheiro. Será uma pequena quantia diariamente. O problema maior será para as empresas e organismos que têm que movimentar maiores volumes de dinheiro e pagar a muitas pessoas. Isto dá-nos uma ideia do que é uma crise deste tipo.
Mas outro desenvolvimento esperado era o surgimento de histórias que seguramente nos irão deixar estupefactos ou enraivecidos daqui em diante.
E já começaram essas histórias, como as que nos dão conta de grandes movimentação de capitais para fora de Chipre com a ajuda dos responsáveis das banca cipriota. Amigos russsos, e não só, conseguiram transferências significativas antes do anúncio oficial das medidas. De nada valeram as decisões de congelamento dadas pelo Banco Central. Ou seja, banqueiros e oligarcas russos estiveram mancomunados, e muitas histórias servirão para hollywood passar a filmes. Os cipriotas comuns serão os mais prejudicados, como é costume nas sociedades ditas democráticas, onde o poder político e financeiro se dão as mãos.
Em Portugal , os casos do BPN, do BPP, ou as ajudas dadas pela Caixa Geral de Depósitos a investidores como Joe Berardo para comprar acções em bancos, dando como garantias as próprias accções, algo que não podia acontecer num país como os EUA ou a Alemamnha, mostram como o gangsterismo se confunde com posturas ditas de Estado.
Agora, depois das portas arrombadas….. anunciam-se cortes salariais de 25% para o Presidente da República e ministros de Chipre e apuramento de responsabilidades. Mas mais do que isso irão sofrer os cipriotas comuns que perderem o emprego ou tiverem familiares desempregados!!!!!
E nem mesmo tendo um Prémio Nobel da Economia, ( Christopher Pissarides, em 2010), ajudou Chipre a ter uma gestão económica responsável! Porquê? Porque a classe política é mais forte do que isso, e comporta-se exactamente como uma classe na defesa dos seus intereses até ao último momento, e não deixam os seus amigos mais íntimos.
Agora, para lá do esvaziamento dos bancos, temos em Chipre um problema económico da maior gravidade.
Chipre vai precisar urgentemente de um programa económico para compensar o fim de um sector hipertrofiado, ainda por cima com gangrena irrecuperável! Poderá custar umas centenas ou um milhar de milhões de euros, para dinamizar outras áreas económicas. Sem tal programa o país entrará num caos ingovernável.
Um comentário que ontem era feito, embora figurativo, dizia que havia um novo Euro. O “Euro cipriota”, ou uma moeda paralela ao Euro e não convetrível, o que queria significar o facto de haver controlo de capitais apertados numa economia com a Moeda Única. Este comentário signifca que ao serem impostos controlos na movimentação de capitais, ainda que ditos de curta duração, alguns comentadores consideram que tais controlos vieram para ficar por mais tempo, o que na prática torna o Euro Cipriota não livremente convertível.
Estes controlos de capitais são obviamente indispensáveis se as autoridades cipriotas quiserem evitar o esvaziamento do Euro do seu território, não só pelas medidas de cortes nos depósitos dos que procuravam os bancos cipriotas, mas porque a economia cipriota entrou num túnel apertado.
Chegados aqui diria que a tragédia de Chipre tem um lado útil. Há portas que se podem abrir depois de mais este caso exemplar e da solução que exige.
O quadro de crise da UE vai ficando mais claro para o que pode e deve ser uma solução para Portugal se a Europa quiser evitar que se chegue a uma situação de paralisia sem esperança como a da Grécia, ou uma bancarrota como a de Chipre.
Portugal tem aqui uma oportunidade de ainda apresentar uma estratégia nova para o prosseguimento do ajustamento económico e financeiro. Falta apenas quem o protagonize.
