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CENSURA E MANIPULAÇÃO – 1 – por César Príncipe*

Este artigo, que publicamos com autorizaçãol expressa do autor, foi publicado em  O Militante, n.º 323, Março/Abril 2013, Ano 71, Série IV. Os nossos agradecimentos.

Tudo o que o homem não   conhece não existe para ele. Por isso, o mundo tem para cada um o tamanho que   abrange o seu conhecimento.
Carlos Bernardo González Pecotche [1]

A consciência individual é anulada pela quantidade de informação   empacotada.
Edward W. Said [2]

Os actores e os actos da Censura no Regime Democrático adaptaram-se ao novo contexto. Quais as diferenças formais e funcionais entre a Censura do Estado Novo e a Censura do Novo Estado? Muitas há e não seria historicamente fundamentado nem intelectualmente correcto meter as duas no mesmo saco ou no mesmo Index. As vicissitudes e os desenganos deste ciclo democrático não justificam equiparação apressada nem cegueira relativamente às malhas e manhas da Nova Administração da Opinião Pública. Comecemos pelas alterações gerais do regime censório. No plano físico da Arquitectura do Poder, verificou-se uma mudança de domicílio ou uma deslocalização. Na verdade, no período do Estado Novo/Fascista, a Censura passou da fase castrense à fase paisana (não deixando, todavia, nos seus 48 anos, de incorporar militares na Guerra Civil da Informação-Contra-Informação), sedeando os Serviços Centrais no Palácio Foz (Lisboa) e em delegações distritais, com especial zelo no Porto, onde se editavam três centenários matutinos: O Comércio do Porto, Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro. Conquistada a Liberdade de Imprensa, em 25 de Abril de 1974, naturalmente a Comunicação passou a espelhar a nova correlação de forças, elevando a rua a protagonista da revolução. O modelo mediático popular e revolucionário alterar-se-ia a partir do 25 de Novembro de 1975, paulatinamente emergindo outro modelo, elitista e contra-revolucionário, corporizado na Rede Nacional-Imperial da Informação. Apontaremos algumas singularidades do actual paradigma censório. A Censura desocupou os edifícios oficiais e camuflou-se nas empresas de Comunicação, investindo nas respectivas funções e missões, já não a patente de coronel, mas a de bacharel. Isto é, o regime censório de fachada democrática, compelido a esconder as vergonhas do fascismo, acabaria por resolver as suas necessidades com esperteza e poupança: passou a exercer o Exame Prévio dentro do espaço empresarial e redactorial, dando lugar a uma nova figura executiva. Essa nova figura reconhecer-se-á no director-censor ou no censor-editor, hierarquizadores de evidências, manipulações e omissões. Este golpe de mestre tem permitido disfarçar a existência de um corpo censório, colando as duas peles (jornalista e censor) numa só pele, numa só pena e num só salário. Os censores acobertam-se, agora, sob a capa da Carteira Profissional de Jornalista. O capitalismo procedeu a uma vingança a frio, com requintes sadomasoquistas: transferiu as atribuições e o odioso da Máquina Censória. Também evitou encargos com aposentos distintos. Assim se processou a ascensão e consagrou a promoção do Censor News: Leve dois e pague um . A chamada classe jornalística e os naipes de colaboradores movem-se neste território e neste contraditório. A selecção dos comunicadores assenta mais no mercado do que no mérito. A Liberdade de Empresa sobrepôs-se à Liberdade de Imprensa. Os grupos económicos assumiram o encargo político de triar os mensageiros e assessorar a gover(nação) e, amiúde, certa oposição, parceira da alternância, além de alienar a psicologia colectiva e desincentivar a democracia participativa, regendo-se pela máxima romana: o mínimo de pão e o máximo de circo. Lançados os dados, importa apurar em que medida os assalariados da República Mediática ou da coisa pública e publicada não serão cúmplices da lei da rolha do BCI/Bloco Central de Interesses. De facto, confrontados com os Códigos de Barras Deontológicas e os Artigos da Constituição, não poucos optam pela Caninização ou, no classificativo de Halimi, por reencarnarem em chiens de garde [3] ou cães de guarda de serviço, [4] variante filogenética de Frola. Claro que a relação cão-dono (intimidade pessoal, historial sanitário, cadastro de incidentes) diferencia os currículos e determina as sortes. Não é cão de estimação ou de colo apenas quem quer ou se põe a jeito ou rosna à passagem de um veículo da concorrência. O dono do cão distingue as raças e as rações. [5] Alguns tudo fazem para imitar a voz do dono, adoptando poses de elementos da família, outros manifestam a triste condição de cadelos. [6]

Sob intervenção externa

O regime censório de fachada democrática recruta, de preferência, jornalistas com vocação de serviço privado e intelectuais orgânicos. São os castrati ou meninos de coro mediático. Cantarolam na Casa do Senhor e manejam, com prontidão, o lápis azul do Profano Ofício, um lápis modernista: acoplado a um computador. A agenda doméstica conta ainda com a eficiência das patrulhas check-point, treinadas pela OMG/Ordem Mediática Global. Assim se organiza a cadeia de censura em sede económica, sem cuidar de normativos profissionais e referentes legais. Impera o Regulador Patronal em prejuízo do Regulador Constitucional, Regulador Social, Regulador Laboral. A Lei Fundamental inverteu-se: passou a ser a subscrita pela Assembleia Constituinte dos Onze, tantos são os grupos que mais ordenam no espectro mediático português: Cofina, Controlinveste, Estado, Igreja Católica, IURD, Impala, Impresa, Média Capital, Sojormédia, Sonaecom, Zon Multimédia. A nova ordem mediática implicou o varrimento do grosso dos jornalistas que tinha sobrado do 25 de Abril, esvaziando as redacções de memória e consistência. O capitalismo expulsou das fileiras ou colocou na reserva os Capitães de Abril da Informação, fazendo ingressar jovens escolarmente anglo-saxonizados e profissionalmente desprotegidos. Geração que há anos, com algum acento paternal, cognominei de infantário electrónico. De resto, para o sistema, um jornalista não passa de um computador com carteira profissional. Assim se desenha um perfil de redacção que não investe em activos intergeracionais (éticos e dialécticos). A vida interna foi sendo esvaziada de personalidade e património. Quanto à interferência externa, atente-se nas Agências de Publicidade, enquanto persuasoras do relevante: modelam a Agenda Diária e o Design Editorial. A Primeira Página, outrora tida por sagrada, a roçar o intocável, foi sendo invadida e capturada pela Publicidade, de tal modo que, com frequência (sempre que o cliente ordena), é oferecida como Espaço de Simulação Noticiosa, de grande mancha editorial. Concorrendo com esta valência mediática, também é visível a actuação das Empresas de Comunicação (vocacionadas para o catering ou a comida pronta e embalada). Somam-se a estes actores subcontratados os Gabinetes de Imprensa/Relações Públicas que empenhada e graciosamente vazam os seus recados, por vezes, ipsis verbis. Junta-se a este complexo intervencionista a arma selectiva dos colaboradores. Cumpre-lhes elaborar teses de enquadramento e remates de emissão. São quase sempre os mesmos ou defendem quase sempre o mesmo. Para isso foram recrutados.

Filhos da pauta

O papel desta Redacção Colateral raramente diversifica ou enriquece o produto, já pré-condicionado pelo poder patronal e pelo treino educativo. No campo dos actores extraterritoriais, os órgãos de Comunicação acham-se ainda reféns (por critérios de redução de custos e colagem ideológica) das orquestrações mediáticas mundiais. Bastará um relance pela Imprensa Internacional de grande tiragem ou saltitar de canal em canal para surpreender um jornalismo made in, propagador de infopandemias. Tal transbordo inclui matéria informacional corrente e não só: se atentarmos na vertente musical, cerca de 70% da música emitida nas estações nacionais é de filhos da pauta anglo-saxónica. Queiramos ou não, temos as antenas censuradas e colonizadas. A generalidade dos jornalistas coopera na retransmissão por contágio sistémico ou indolência funcional. Uma minoria é especialmente adestrada para manter a massa crítica longe das redacções e audiências. Neste mercado de revenda, bom jornalista é aquele que agita tudo que o patrão lhe meta na mão. E não faltam agitadores voluntários ou apanhados na onda. As Redacções estão, de resto, formatadas como microondas fast-food, reaquecendo enlatados das Empresas de Comunicação, Publicidade & Marketing, dos Gabinetes, das Agências, das CNN`s, das conferências dos Novos Doutores da Lei e dos briefings dos Generais da Ordem do Império.

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