A língua do poder
Diferentes estados, diferentes culturas, diferentes línguas. Mesmo estado, mesma cultura, mesma língua. É desse jeito que nos educam e por isso não entendemos nada. Na verdade, os estados não são conjuntos nacionais, as culturas ignoram as fronteiras e as mesmas línguas são faladas em diversos lugares, nações, estados sem importar raça, cor, estatura ou peso.
Mas, segundo a lógica do poder, na Galiza não podemos falar a mesma língua que em Portugal. Pertencendo a estados diferentes a nossa língua não pode ser comum. Não sendo portuguesas, como iríamos falar português? A lógica do poder manda por cima da ciência, da história e da experiência, e desse jeito carregadas de razão esgaçamos o sustento da memória.
Pela mesma lógica as pessoas da rua não podemos aceder aos instrumentos de poder. O poder é endogâmico. Somente aquelas que já fazem parte dele aprendem a sua língua e são educadas no ofício. Por isso quando as pessoas da rua exercem o direito a auto-organizar-se, a avaliar e decidir, a governar-se por si mesmas sem o patriarcal abrigo de uma autoridade estadual são espancadas, desiludidas, traídas e até presas.
O poder protege os seus privilégios. Perpetua-se procurando os indivíduos melhor dotados para a sua reprodução. O governado é muito menos importante que o sistema de governo, que o exercício do poder. O fim justifica os meios e Macbeth é sempre o novo rei. A violência do verdugo é motor e fundamento, e até o desgoverno é assunto democrático pois hoje o poder vestiu-se de democracia.
Por isso as mal-educadas, ignorantes dessa cultura, que trabalhamos sem dependências oficiais, que fazemos por nós sem aguardar que uma instituição nos salve ou nos financie, as espancadas, as traídas, as presas, as pessoas da rua não entendemos nem falamos a língua do poder.
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