Resistência do irmão D. Miguel.
Todavia, a despeito de o infante D. Miguel declarar, em Viena, que também prestava homenagem ao seu «muito amado irmão e senhor, o imperador do Brasil», o partido absolutista, que o reconhecia como chefe, prosseguiu no duelo entre o Portugal da Tradição e o Portugal da Revolução.
A 4 de Outubro – e de harmonia com as cláusulas da abdicação de D. Pedro –, em Viena de Áustria, o infante D. Miguel jurou a Carta Constitucional, muito embora, de acordo com Metternich e com suas irmãs casadas em Madrid, continuasse a trabalhar pelo restabelecimento do governo absolutista. Mas D. Pedro, apesar de informado do que se passava na Europa, por decreto de 23 de Julho de 1827 confiou-lhe a regência do reino e nomeou-o seu lugar-tenente.
D. Miguel saiu de Viena a 6 de Dezembro. Entrou no Tejo, a bordo da fragata portuguesa Pérola, a 22 de Fevereiro de 1828. E a 26, no Palácio da Ajuda, perante as Câmaras, a infanta e o corpo diplomático, ratificou o seu juramento de fidelidade à Carta Constitucional e a D. Pedro.
Em face, porém, do golpe de estado de D. Miguel e da sua proclamação como rei absoluto, D. Pedro – que, em 16 de Outubro de 1829, casara em segundas núpcias com a princesa Amélia de Beauharnais – abdicou em seu filho e, com a esposa e a filha, tomou o rumo da Europa. Vinha colocar-se à frente da causa liberal portuguesa, numa altura em que a situação internacional se lhe tornara mais favorável, em virtude da revolução francesa de Julho de 1830 e da subida, em Inglaterra, de um Gabinete liberal.
Deixou a esposa e a filha em Paris e, tendo conseguido os indispensáveis recursos financeiros, organizou com os liberais portugueses exilados em França e Inglaterra moderados e radicais, agora unidos contra o inimigo comum, uma expedição que se reuniu em Belle-Isle, nas costas da Bretanha, e seguiu para a ilha Terceira. Aqui, com o título de duque de Bragança, assumiu a regência em nome da rainha sua filha e organizou um ministério de que faziam parte Mouzinho da Silveira, o marquês de Palmela e Agostinho José Freire.
Em 8 de Julho de 1832, D. Pedro, com um exército de 7500 homens, desembarcou perto do Porto e, no dia seguinte, entrou na cidade, que os miguelistas não tardaram a cercar, apertando-a num círculo de ferro e fogo.
Foram dias tristes e angustiosos, verdadeiramente dramáticos, mas durante os quais, com o maior brilho, se manifestaram as qualidades de D. Pedro.
Em 1833, o duque de Saldanha imprimiu à defesa da cidade novo e decisivo impulso. O comandante da marinha inglesa Charles Napier transportou 1500 homens do Porto ao Algarve, comandados por Vila Flor (duque de Terceira) e à volta, a 5 de Julho de 1833, derrotou a esquadra inimiga próximo do cabo de S. Vicente – rude golpe vibrado no miguelismo.
Vila Flor atravessou o Alentejo, caiu sobre Teles Jordão na Cova da Piedade e entrou triunfalmente em Lisboa a 24 de Julho.
Os liberais vieram para a capital, e, no prosseguimento da guerra civil, Saldanha tomou Leiria e derrotou os miguelistas em Torres Novas e Almoster. Charles Napier, desembarcado, submeteu o Minho; Sá da Bandeira, o Alentejo; Terceira, Trás-os-Montes, alcançando depois, a 16 de Maio de 1834, a vitória de Asseiceira.
D. Miguel é expulso do País.
Reconhecendo-se impotente para prosseguir a guerra, D. Miguel aceitou a rendição, pelo que Saldanha, Terceira e o comandante dos absolutistas, general Azevedo Lemos, se reuniram numa modesta casa da povoação de Évora-Monte, onde, a 26 de Maio, na presença de John Grant, secretário da legação britânica em Lisboa, redigiram as capitulações da convenção entre os dois partidos em luta. Entre outras cláusulas, D. Miguel – a quem era concedida uma pensão de sessenta contos de réis, «atendendo à elevada categoria em que nasceu» – teria de deixar o País no prazo de quinze dias, «com a declaração de que nunca mais voltará a parte alguma da Península das Espanhas ou dos Domínios Portugueses».
A 18 de Setembro de 1834, gravemente minado pela tuberculose, D. Pedro enviou uma mensagem à Câmara dos Deputados – constituída em 23 de Agosto – para lhe declarar que não podia continuar, por doença, a tomar conhecimento dos negócios públicos. Por carta de lei de 19 de Setembro, a rainha D. Maria II é considerada maior, e, no dia seguinte, presta juramento e assume a direcção do governo do reino. A 24 extinguia-se D. Pedro, no mesmo palácio onde nascera trinta e seis anos antes.» *
* José Brandão, A Vida Dramática dos Reis de Portugal, pp. 229-233.
