Site icon A Viagem dos Argonautas

PORQUE É QUE CHÁVEZ PÕE TODA A GENTE LOUCA, de GAËL BRUSTIER

Selecção, tradução e nota de introdução por Júlio Marques Mota

http://www.globalresearch.ca

Porque é que Chávez põe toda a gente louca

Gaël Brustier

http://blogs.rue89.com/chez-gael-brustier/2013/03/25/pourquoi-chavez-rend-tout-le-monde-hysterique-229950

PARTE II
(continuação)

……

1989-1993 : massacres, putsch et debates de ideias

Em Fevereiro de 1989, uma bateria de medidas impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) é decretada pelo governo. Seguiram-se depois dias e dias de agitação social, dias de tumultos e de repressões. Registaram-se cerca de 3.000 mortos. É o Caracazo.

À margem destes protestos e da sua repressão, famílias de activistas de esquerda são sistematicamente assassinadas pelos “esquadrões da morte”. O governo de Carlos Andrés Pérez permanecerá associado a estes massacres. Entre os militares e policias, muitas vezes saídos das camadas populares, nasce uma raiva surda que aumenta dia a dia .

Em Fevereiro de 1992, um grupo de oficiais, liderado por Hugo Chávez, tenta derrubar pela força das armas o governo de Carlos Andrés Pérez (CAP). O grupo de oficiais é ligado através de Adan Clayton, o irmão de Hugo, com Douglas Bravo a figura tutelar da esquerda radical venezuelana e histórico líder da FALN.

Este grupo reclama-se das ideias de Bolívar e apoia-se na ala esquerda da contestação contra o governo de CAP… O golpe de força falha. Mas Chávez agarra a sua oportunidade mediática. ” Por Ahora ” – “agora mesmo” – não atingiu os seus objectivos, afirma Chávez em frente às câmaras de televisão. Mais tarde, ele alcançá-los-à. No dia 4 de Fevereiro é para Chávez o que foi Moncada para Castro. Um fracasso militar, um nascimento mediático.

Pouco depois, Carlos Andrés Pérez é acusado de corrupção e é deposto. As ondas de crise económica aumentam. As elites dividem- se. A esquerda radical consolida-se.

1993: o fim de Punto Fijo

Em 1993, Rafael Caldera, velho político conservador, foi eleito à frente de uma coligação de partidos que vão desde os partidos de centro-direita à esquerda radical, tendo tomado o cuidado de romper com o seu antigo partido, Copei. Nessa mesma eleição, Andres Velasquez, da La Causa R, partido da esquerda radical, obtém nada menos que 22% dos votos.

Dois antigos guerrilheiros – Teodoro Petkoff e Pompeyo Márquez – entram para o governo. O primeiro enquanto Ministro da Fronteira (todos os governos venezuelanos eram obrigados a controlar de perto as actividades das várias facções beligerantes na fronteira colombiana), enquanto o segundo assume a pasta de  ministro das infras-estruturas.

Mas este governo, que rompeu formalmente com o Pacto de Punto Fijo, não rompe, apesar disso, com as linhas de orientação económicas dos governos anteriores.

Esta é a altura em que a esquerda hesita e em que muitos aceitam a ideia de que o capitalismo é um “horizonte inultrapassável” e segundo o qual as receitas neoliberais funcionam. Petkoff torna-se o arquétipo do homem de esquerda que abraça o neoliberalismo.

Em 1994, Chávez é libertado. Bem depressa, vai dar garantias. Mudando a farda militar por um conjunto de calça e casaco, Chavez chega a declarar que Cuba é uma ditadura. Acima de tudo, ele vai acabar por aceitar o jogo eleitoral na base do conselho de políticos que deixaram os partidos do governo, como Luis Miquilena.

No final de 1997, ainda é Irene Saez, antiga Miss Universo e prefeito de Chacao (espécie de distrito XVI de Caracas), que é a favorita nas sondagens. Prova de que a Venezuela procura  uma alternativa face aos partidos da Quarta República.

1998-2002: alternância ou alternativa?

Ele começa e compromete-se na sua campanha de 1998 em defender uma moderação económica que tranquiliza toda a gente – naquela altura Chávez reclama-se adepto da “terceira via” de Blair – mas promete especialmente o fim do Pacto Punto Fijo, (que na verdade já estava ferido de chumbo na asa), uma nova Constituição (a quinta na história da Venezuela), o fim da corrupção e, mais importante ainda, promete o fim da pobreza.

Pouco a pouco, Chávez ganha adeptos e ganha as eleições com 56 por cento dos votos, e desenvolve um processo de assembleia constituinte e apresenta-se dois anos mais tarde, em 2000, contra um antigo dos seus apoiantes: Francisco Arias Cárdenas (hoje candidato chavista no estado de Zulia).

Promove a aplicação de programas de alfabetização, utiliza o petróleo da PDVSA para trocá-lo contra a vinda de médicos cubanos, desenvolve os media locais… ” A Democracia participativa e de protagonismo” nascida da nova Constituição é vista com horror pelos bairros dos mais ricos…

“Círculos Bolivarianos” são vividos pela burguesia como constituindo um perigo para a Venezuela… Alguns dos seus apoiantes desertaram e o MAS explode. Chavez agrega em torno de si uma parte significativa do país, mas contra ele tem inimigos poderosos: os altos quadros de PDVSA, a Confederação Patronal local – liderada por Pedro Carmona Estanga.

2002: o primeiro golpe de Estado televisionado

A oposição é mobilizada contra Chávez: dos antigos partidos à central sindical CTV,  passando pelos meios de comunicação… à medida que os dias passam, os canais de televisão privados estão cada vez mais virulentos contra Chávez e não vão tardar a pedir o levantamento militar.

Produtores de “telenovelas” duma pobreza tal que fariam passar alguns dos nossos canais da TNT por cadeias culturais, RCTV, Globovision e Televen são a espinha dorsal de um golpe de força mediática contra Chávez.

Face aos canais privados, a cadeia pública, um pouco ‘ pobrezinha ” em termos de meios de produção não pesa. Esta dispõe apenas da “cadena nacional”, um princípio que estipula que a utilização das ondas pode ser requisitada pelo governo, princípio em vigor em vários Estados da América Latina e que não funcionou durante o putsch … Foram as televisões que desempenham um papel fundamental neste putsch.

À noite, depois de se ter ocupado a tratar de evacuar os seus colaboradores mais jovens, Chávez, ameaçado de um bombardeamento do Palácio de Miraflores, rende-se aos golpistas. Evacuado sobre uma base ao largo da costa, no mar, o seu destino permanece incerto durante algumas horas. Deve o facto de ter tido a sua vida salva à intervenção de um alto dignitário da Igreja Católica.

Na sala onde Chavez ganhou o hábito, durante quatro anos, de se dirigir aos media e aos venezuelanos, é Pedro Carmona Estanga que assume o seu lugar. São considerados fora-da-lei todos os líderes da Revolução Bolivariana. Muitos deles escondem-se nos “barrios” ou em casa, contemplando, pela televisão as detenções de membros do Parlamento ou dos ministros de Chávez . Esta realidade, poucos a querem ver…

Ninguém se apercebe, mas na sala onde se encontra Carmona, que o retrato de Bolivar desapareceu. Os sectores mais conservadores da insurreição, ligados alguns à Opus Dei fizeram desaparecer o retrato deste notório maçom, símbolo odiado simultaneamente de uma Venezuela que sonha com a Revolução francesa e da ‘Revolução Bolivariana’ odiada pelas elites venezuelanas.

Muito rapidamente, das colinas circundantes, aparece uma multidão de adeptos de Chávez. Carmona e os seus fogem. Chávez regressou no final da noite. A ordem constitucional é restaurada. Não há nenhuma repressão a seguir a este golpe … Carmona ainda hoje vive tranquilamente no seu exílio dourado.

Mas a oposição não desarma … Entre Dezembro de 2002 e Fevereiro de 2003, é declarado o “bloqueio”. A companhia de petróleo PDVSA não funciona. A distribuição de produtos alimentares está em ponto morto. Chega aos “barrios” chavistas apenas a famosa cerveja Polar.

Pouco depois, em 2004, Danilo Anderson, o juiz encarregado de instruir o processo o de golpe de Abril de 2002 foi assassinado num atentado. O seu carro explodiu.

(continua)
Exit mobile version