PORQUE É QUE CHÁVEZ PÕE TODA A GENTE LOUCA, de GAËL BRUSTIER

Selecção, tradução e nota de introdução por Júlio Marques Mota

Nota Introdutória ao texto sobre Chavez

Um texto profundamente sério sobre Chávez, sobre a América Latina, sobre as razões de uma referência que na História há-de perdurar, sobre um mito que há-de continuar, Hugo Chávez, o defensor dos pobres, o defensor de uma outra globalização também.

Dedico esta peça a uma amiga minha que amanhã, dia 1 de Abril, da Venezuela irá  regressar e dedico-o com a certeza de que lhe permitirá ler, ver, sentir e  de uma outra forma a realidade que acaba de reviver. Longe, agora em Portugal, espero que este texto lhe sirva como uma espécie de pano de alta qualidade a limpar os olhos da sua alma e a melhorar a perspectiva que desse país possa agora trazer.

Dos artigos da imprensa portuguesa lembro-me apenas de um publicado no jornal Público com a assinatura de José Vítor Malheiros que daqui cumprimento e felicito pela referida peça e nada mais li de relevante.

No presente artigo fala-se também, necessariamente do FMI e das suas políticas que na Venezuela custaram milhares de vidas, com o silêncio de quase toda a gente, a que se seguiu depois, sob o reino de Bush e com o seu apoio, um golpe de Estado contra Chávez em que contra os putschistas este não exerceu depois nenhum revanchismo e cuja importância também foi ela minimizada a Ocidente.

E na Europa como é que vai ser? A crise europeia, do meu ponto de vista, ainda vai no adro e as questões que Chipre levanta, as metodologias de verdadeiro saque que a União Europeia aprovou, tudo isto são sinais evidentes que muito sofrimento ainda está para se criar. A menos que à escala europeia e no quadro do pensamento democrático em vigor ainda na Europa muitos Hugo Chávez europeus possam surgir e sabemos que muitas vezes a desgraça é mãe de muitas coisas boas. Foi assim na Venezuela, esperemos que seja assim na Europa.

E espero também que a minha amiga sinta utilidade na leitura do presente trabalho que lhe é dedicado.

Júlio Marques Mota

www.globalresearch.ca
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Porque é que Chávez põe toda a gente louca

 

Gaël Brustier

http://blogs.rue89.com/chez-gael-brustier/2013/03/25/pourquoi-chavez-rend-tout-le-monde-hysterique-229950

Parte I
Hugo ChávezPorta-chaves Hugo Chavez em  Caracas, em 13 de Março de 2013 (Rodrigo Abd/AP/SIPA)

É muito interessante verificar o grau de histeria que envolveu, em França, a morte de Chávez. Raramente a ignorância da história e da situação de um país terá sido exposta com tanta satisfação por parte de dezenas de analistas improvisados.

Todos ganhariam, no entanto, se fosse feita uma análise desapaixonada. Para isso é necessário relembrar um mínimo de história.

Após a ditadura de Pérez Jiménez (1948-1958) e a revolta armada que pôs fim ao seu regime, uma “Quarta República” nasceu. Em Punto Fijo, a leste de Caracas, três partidos, concluíram então um pacto:

• Acção Democrática (AD),

• O Comité de organização política eleitoral independente (Copei),

• a União Republicana Democrática (URD)…

É aqui que se começa a desenrolar a construção da história recente da Venezuela.

Antes de Chavez: Uma democracia exemplar?

O que é que diz este “Pacto de Punto Fijo” ? Que estes três partidos se colocaram  de acordo sobre um sistema democrático representativo mas também nos diz que estes concordaram em excluir o partido comunista venezuelano do exercício das suas responsabilidades.

Durante anos, o PCV é marginalizado, bem como de todas as estruturas políticas que estão localizadas à esquerda deste tabuleiro político. As organizações militantes de esquerda, a Liga Socialista, o MAS, a Causa R, pagam frequentemente de forma muito dura o seu empenho político, às vezes à custa das suas próprias vidas.

Nasceu uma guerrilha. Ela tem como seus líderes os jovens intelectuais nascidos na ruptura com o PCV: Douglas Bravo, Teodoro Petkoff, Pompeyo Marquez… As Forças armadas de libertação nacional (FALN) alimentam-se de jovens saídos do PCV ou do Movimento da Esquerda revolucionária (MIR), uma cisão esquerdista de AD… Um testemunho contemporâneo sobre esta guerrilha está disponível nos “escritos sobre a América Latina” de Régis Debray.

A esquerda está igualmente dividida: um advogado dos direitos do Homem (José Vicente Rangel)  representa-a em diversas eleições e obtém baixas percentagens de votos nas urnas enquanto Teodoro Petkoff, um antigo guerrilheiro, a representa também nas eleições de 1983, com maus resultados.

Os diferentes partidos, especialmente Copei e AD desenvolvem um clientelismo que, pouco a pouco, se torna endémico. A crise económica da década de 1980 perturba e agita a situação. A classe média afunda-se ao mesmo tempo que acontece o mesmo com uma economia totalmente dependente do petróleo e que o governo de Carlos Andrés Perez levou à ruína…

(continua)

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