Selecção, tradução e nota de introdução por Júlio Marques Mota
Porque é que Chávez põe toda a gente louca
Gaël Brustier
PARTE III
(CONCLUSÃO)
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“Vermelho no vermelho”
Em Caracas, a polarização geográfica e política é extrema. Para o leste, na parte alta da cidade, detesta-se Chávez, mobilizam-se massivamente contra ele durante as manifestações, praça de Altamira ou nas ruas de Chacao e Baruta. Para o oeste, nos “barrios”, o apoio está em crescendo. Sobre estas colinas, povoadas pelos mais pobres, de um urbanismo totalmente anárquico, Chávez acaba por ser adulado.
Escolas e clínicas, super-mercados “Mercal” irão surgir ao longo dos anos e para oferecer a esta população, outrora abandonada, o que nunca lhe tinha sido oferecido.
Entrado em conflito com uma grande parte das administrações colonizadas pelos partidos Copei ou AD, Chávez desenvolve políticas extra-estatais: as “missões”.
Entre 2003 e 2004, as consultas médicas são multiplicados por cinco. Em 2007, cerca de 7.000 dispensários foram construídos em todo o país. O número de médicos passa de 1 300 no país para cerca de 15.000. Em 2005, 17 milhões de pessoas têm acesso à medicina contra 3,5 milhões anteriormente.
Chávez mobiliza multidões. O seu estilo desarma muitos observadores estrangeiros. Desde os “barrios”, os “chavistas” desfraldam e fazem grandes manifestações. Francamente, nada disto se parece com uma reunião do MoDem em Rambouillet … Na Venezuela, naqueles dias tudo é “rojo rojito”, “vermelho no vermelho.” Isto é devido a uma muito forte polarização.
Chávez fala ao ‘povo’ ao mesmo tempo que ele critica duramente os oligarcas e os «escualidos», estes filhos de papá que foram para as barricadas no Inverno de 2003, armados com tacos de golfe. Os «escualidos» odeiam Chavez, este ‘macaco’, que incarna tudo o que eles nunca quiseram ver no país: a mestiçagem, a pobreza, o seu radicalismo político…
Discurso sincrético
Chávez tem um discurso sincrético. Ele invoca, obviamente, Bolívar, ressuscita as lutas dos federalistas de Zamora contra os conservadores durante a guerra civil de 1859-1863. Uma canção, o hino dos chavistas, ‘oligarcas tremam!’ é herdada directamente desta história e lembra a luta de Zamora contra os grandes proprietários.
Chávez transporta do socialismo autogestionário venezuelano um grande número de referências. Ele rodeia-se de defensores e advogados de direitos humanos que lutaram contra o antigo regime, entre os quais e na primeira fila está José Vicente Rangel, durante um certo tempo seu vice-presidente.
Chávez captou a retórica da teologia da libertação, num país onde a crença é generalizada, mas onde o clero católico não brilha (como durante o putsch de 2002) pelo seu progressismo. Mas a sua invocação de Jesus (clássico na América latina ) pode ser acompanhada da de Popol Vuh, o livro sagrado dos Maias. Um pouco como na França da Terceira República onde Vercingetorix e o bom rei Dagobert foram referências…
Chávez defende o fim da luta armada na América Latina. O poder deve estar no boletim de voto. Chavez compreende isso e compreende que o dinheiro do petróleo venezuelano pode ser valioso para outros movimentos de esquerda na América do Sul.
Um sistema eleitoral eficaz
O que também é verdade é que Chávez aumentou significativamente a participação cívica. Em 1993, a Venezuela contava cerca de 21 milhões de pessoas. Caldeira foi então eleito Presidente com 1,7 milhões de votos. Em 2012, a Venezuela tinha 29 milhões de habitantes. Chávez foi reeleito com 8,2 milhões de votos. Em 1998, a participação para a sua primeira eleição não excedeu 54%. Em 2012, é 80%. A Fundação Carter considera o sistema eleitoral venezuelano como um das mais eficientes do mundo.
Os chavistas compreenderam desde muito cedo que toda a flutuação na organização das eleições iria ser explorada. Eles estabelecem um sistema que é inquestionável até mesmo para os olhos da oposição.
Como o sublinha Jonathan Eastwood num livro que é uma obra de referência sobre a Venezuela de Chavez, há uma “tensão entre a redução das desigualdades, da pobreza, do desenvolvimento sustentável e uma economia baseada no petróleo”.
Além disso, e para além da tensão anterior há também uma tensão entre “participação (cívica) e clientelismo”. A Venezuela não rompeu num só dia com práticas comuns desde há décadas.
E, por fim, existe uma tensão entre a democracia participativa e um centralismo autoritário. Chavez, pelo poder carismático que exerceu, tem sido muitas vezes uma instância de recurso num país onde, se existe, a democracia participativa, ainda não está “rotinada”. A figura de Chavez, o seu carisma, cresceu, é verdade, até uma “personalização” do poder…
Uma batalha em torno da identidade da esquerda
No final desta pequena viagem na história de um país e no mundo das representações que animam a França a seu respeito, torna-se óbvio que nada é realmente tão simples quanto as representações que podem ser feitas o possam fazer crer.
Desde então, porque é que toda a gente em França se tornou histérica sobre este tema? Certamente porque a experiência de Chávez foi a primeira experiência governamental, que se reclamava de esquerda (radical) na era da globalização.
A leitura política sobre Chávez , ainda mais do que a que pode ser feita em torno de fóruns como o de Porto Alegre, é que esta se tornou uma das principais questões políticas. Trata-se de uma batalha em torno da identidade da esquerda…
Além disso, Chávez, mestiço, porta-voz dos mais pobres no seu país, terá certamente perturbado muito e muita gente pela sua capacidade de falar ao mundo. Não terá sido tanto a sua diplomacia que terá então incomodado mas sim o facto de que ele tinha uma …
Ele recebeu Mugabe ou Lukashenko como Sarkozy recebeu Kadhafi, como todos os nossos presidentes receberam Omar Bongo, como tantos e tantos Presidentes do Norte receberam ditadores ou autocratas. Será necessário desculpar esta política? Não. Mas ela não se resume a isso.
Sobretudo denunciá-la não deve servir de meio e de defesa para outros fins, obviamente menos dignos. Há onze anos atrás, muito pouca gente denunciou o golpe de Carmona, como também o mundo pouco fez há já um quarto de século, que pouco ligou ao caso de Caracazo.
