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CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 47 -por José Brandão

D. Carlos e João Franco

 

Vive-se num período em que tudo o que estava a acontecer servia para dar mais razão aos que nunca paravam de conspirar contra o poder monárquico.

«Sabe-se hoje que foi por essa ocasião que maior incremento tomou a propaganda revolucionária e que maior desenvolvimento tomaram as associações secretas, cuja organização até essa data estava apenas vagamente esboçada.» Estas palavras do franquista Álvaro Pinheiro Chagas são bem elucidativas quanto aos efeitos da política repressiva de João Franco.

A par da repressão franquista, ia aumentando o número de fabricantes clandestinos de bombas artesanais, que de vez em quando se davam a conhecer, principalmente quando violentas explosões punham a descoberto as suas actividades secretas, como acontece em Agosto e em Novembro de 1907, uma na Rua de Santo António, à Estrela, outra na Rua do Carrião, estando nesta última implicado o então estudante e jovem jornalista Aquilino Ribeiro.

A explosão das bombas de dinamite na Rua do Carrião vem pôr as sociedades secretas na lista das prioridades da polícia secreta monárquica que destaca para as investigações um dos seus mais hábeis peritos, o agente Ciro, bem conhecido dos revolucionários.

Enquanto isto, D. Carlos, em carta a João Franco, ia dizendo: «Quanto aos anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais me convenço que o caminho que nós traçamos é o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras ao teu lado a ao governo, por pensamentos, palavras e obras!»

Logo de seguida, em entrevista ao jornal francês Le Temps, na qual o rei se reafirma solidário com o governo franquista diz que «tudo está calmo em Lisboa, como no país» e que «só os políticos se agitam».

Contrariamente ao que o rei pensava, o tempo era de actividade constante para conspiradores. Todos quantos tivessem gosto pela intriga e pela aventura dispunham de muito por onde escolher.

Aberta a todas as classes sociais e perspectivada para um objectivo mais voluntarioso e desinibido, a Carbonária Portuguesa depressa se transforma numa autêntica vanguarda popular. Nela cabem todos os que amam a conspiração, todos os que desejam combater, todos os que estão dispostos a passar da «teoria à prática».

Médicos, engenheiros, advogados, professores de todos os ramos de ensino, estudantes, oficiais superiores do Exército e da Armada, sargentos, alguns administradores de concelho, funcionários públicos de todas as categorias e de todos os ministérios, proprietários, lavradores, comerciantes, lojistas, empregados de comércio, actores, operários, cocheiros, condutores e guarda-freios, ferroviários e — não há que duvidar — até agentes e guardas da Polícia chegam a fazer parte da Carbonária Portuguesa.

Chefes de grupos carbonários

O REINADO

Como se nada disso lhe interessasse, o rei continuava a viver como gostava.

D. Carlos não se poupa em gastos que custam caro ao País. Muda de iate como quem muda de camisa. O Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia III a que logo sucede o Amélia IV.

Entre outros casos mais ou menos conhecidos, fala-se na compra de dois prédios na Calçada das Necessidades que o rei adquire para os seus encontros extra-conjugais.

O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico.

A par com a famosa questão dos adiantamentos, que fazem da família real o maior devedor do erário público, na Câmara dos Pares do Reino, em 1906, são feitas acusações em que se afirma terem sido gastas nos arranjos da sala de jantares solenes do Palácio das Necessidades, e nas iluminações eléctricas deste Palácio e dos da Ajuda e Belém, quantias que rondam as fabulosas somas de 131 891$715 réis para o primeiro caso e 354 082$333 réis para os segundos.

Desde 19 de Outubro de 1889 que D. Carlos recebe um conto de réis de vencimento por dia, importância que junto à dos vencimentos dos seus familiares custa ao País mais de 520 contos anuais, soma esta muito superior às que recebem as famílias reinantes de países mais ricos como a Noruega e a Dinamarca.

D. Carlos não via com agrado que a questão dos adiantamentos à casa real fosse tratada nessa altura: «Estamos diante de uma fogueira, que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha», dizia em carta a João Franco.

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