D. CARLOS (reinou de 1889 a 1908)
O penúltimo rei de Portugal é o resultado do cruzamento de quase todas as casas reais europeias. Tem primos espalhados pela Europa fora.
Em 1908, há dezanove anos que D. Carlos é rei de Portugal. Em 19 de Outubro de 1889, na velha cidadela de Cascais, assistira ao termo da penosa agonia de seu pai, D. Luís I, e fora sua mãe a rainha D. Maria Pia a primeira pessoa a prestar-lhe a homenagem.
– Abençoo-te, Carlos, para que sejas tão bom rei como foste bom filho – dissera, na mesma altura, ao cobrir-se com os véus de viuvez, a mãe do novo soberano.
Começou, aliás, da pior forma o reinado de D. Carlos.
Logo em Janeiro de 1890, a Inglaterra exigiu, em termos brutais, que Portugal renunciasse ao chamado «mapa cor-de-rosa», nome dado ao projecto de se aproveitarem as explorações portuguesas no interior do continente africano para se estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. O Governo cedeu e ordenou a retirada portuguesa de alguns territórios já ocupados.
Ser bom rei, porém, não seria tarefa muito fácil para aquele príncipe de 26 anos, a quem o pai deixou uma monarquia desacreditada, uma administração pública feita ao gosto dos interesses dos dois partidos que se revezavam alternadamente no Poder – o Progressista e o Regenerador – um défice de 83 400 contos e uma oposição republicana que principiara poucos anos antes, mas que progredia rapidamente.
Será precisamente com o pretexto da falência do rotativismo partilhado durante vários anos entre os partidos dinásticos Regenerador e Progressista que D. Carlos se «lembra» de João Franco em Maio de 1906: «Há muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquele trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxílio e com toda a força que te devo dar.» – Anuncia o rei na carta em que convida João Franco a formar governo.
Este, não só aceita como não demora muito a entrar em ditadura, dissolvendo o Parlamento em Abril de 1907, contra a forte oposição tanto de republicanos como dos demais partidos monárquicos.
Do rei tem todo o apoio para esta decisão: «São precisas obras e não palavras. De palavras, bem sabemos, está o País farto», escreve D. Carlos na carta que envia na altura ao chefe do seu Governo. Já algum tempo antes tinha respondido a um pedido de demissão de João Franco com esta argumentação: «Há muita coisa a fazer e creio que se pode e deve fazer e temos de seguir o nosso caminho doa a quem doer.»
É neste cenário que lança João Franco na governação ditatorial e que, em Novembro de 1907 dá uma entrevista ao jornal Le Temps, onde explica: «Caminhávamos não sei para onde. Foi então que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura, mas os outros partidos, os que mais gritam, pediram-me, também, a ditadura. Para a conceber, exigia garantias de firmeza. Precisava de uma vontade sem fraqueza para levar as minhas ideias a bom fim. João Franco foi o homem que eu desejava.»
Opinião diversa tinham outros que, como Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria, haveria de escrever: «A ditadura franquista, com os seus corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República».
Enquanto isto, D. Carlos, em carta a João Franco, ia dizendo: «Quanto aos anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais me convenço que o caminho que nós traçamos é o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras ao teu lado a ao governo, por pensamentos, palavras e obras!»
Logo de seguida, em entrevista ao jornal francês Le Temps, na qual o rei se reafirma solidário com o governo franquista diz que «tudo está calmo em Lisboa, como no país» e que «só os políticos se agitam».
Como se nada lhe importasse, o rei continuava a viver como gostava.
D. Carlos não se poupa em gastos que custam caro ao País. Muda de iate como quem muda de camisa. O Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia III a que logo sucede o Amélia IV.
Entre outros casos mais ou menos conhecidos, fala-se na compra de dois prédios na Calçada das Necessidades que o rei adquire para os seus encontros extra-conjugais.
O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico.
Entretanto, Mouzinho de Albuquerque tinha sido nomeado, a 28 de Setembro de 1898, ajudante de campo efectivo do Rei D. Carlos, oficial-mor da casa real e aio do príncipe D. Luís Filipe.
D. Carlos vivia como rei de um País de que não desejava ter muitas maçadas. Entre as maçadas e as caçadas não hesitava na escolha.
Desde muito cedo fizera de Vila Viçosa um local de eleição para as suas digressões cinegéticas e de lazer relaxante. Os ministros e até o próprio presidente do Ministério tinham de rumar até esta vila alentejana quando havia algo a tratar ou o rei os chamava.
Foi o que sucedeu no dia anterior ao regresso fatídico de 1 de Fevereiro de 1908.
Nesse dia recebe o ministro da Justiça, que ali se desloca com um decreto elaborado pelo Governo reunido na noite de 30 para 31.
O documento foi assinado por D. Carlos, nesse mesmo dia 31 de Janeiro. Com este novo diploma régio o primeiro-ministro João Franco fica mandatado para desencadear violentas acções sobre quem ousasse contra a política e o regime vigentes.
O Governo ficava com poderes totais para meter num navio e atirar para Timor, Angola ou outra colónia distante, qualquer indivíduo, mal fosse pronunciado por delito político ou crime de imprensa, prevendo ainda a isenção de julgamento e o efeito retroactivo da lei.
João Franco não deixa margem para dúvidas, quanto às suas intenções de esmagar tudo o que possa causar-lhe embaraços. «Os republicanos estão precisando de sabre como de pão para a boca», dizia ele com todo o arrojo.
Como recorda Raul Brandão, as coisas eram de tal ordem que só se ouvia dizer: «Venha tudo, venha o pior, venha o Diabo do Inferno que nos livre disto!»
«Isto termina, fatalmente, por um crime ou por uma revolução», advertia o monárquico Júlio Vilhena, assustado com as proporções das arremetidas franquistas.
E foi no crime que ocorreu o 1.º de Fevereiro de 1908. Dia em que morreu D. Carlos I, penúltimo rei da Monarquia Portuguesa.
Estava consumada uma das páginas mais dramáticas de toda a História de Portugal. «O rei morreu na tarde do 1.º de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia morreu essa noite, no Paço das Necessidades», escreve alguns meses depois um jornal republicano.
Penúltimo rei de Portugal, D. Carlos foi uma figura histórica incontornável, tendo reinado num dos mais conturbados períodos da vida política nacional.
Mouzinho de Albuquerque e João Franco foram homens do rei D. Carlos.
A seguir- Mouzinho de Albuquerque

