Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A internacionalização do yuan
Antoine Brunet
Recentemente, a China acaba de autorizar que a conversão dos dólares australianos em Yuan e dos Yuan em dólares australianos se possa efectuar sem dificuldade no território da República Popular da China. Anteriormente, a China já tinha autorizado que as conversões idênticas se pudessem realizar na China entre o yuan chinês e iene japonês.
Este tipo de medidas vem-se acrescentar às iniciativas da China incentivando muitos países a negociarem com a China facturando as suas trocas reciprocas não em dólares americanos mas sim ou em yuan ou em moeda do pais parceiro.
A China tem tomado uma série de outras iniciativas para que os bancos centrais de alguns países possam concretamente constituir reservas de câmbio em yuan: os bancos centrais destes países passam a estar na verdade agora autorizados a comprar e manter títulos emitidos a curto prazo em yuan pelo estado chinês, (esses bancos estão também autorizados a executar a posição simétrica: liquidar os títulos e reconverter os yuans na sua moeda nacional ) …
Todas essas iniciativas chinesas convergem para um único objectivo: promover o estatuto internacional do yuan em detrimento do estatuto internacional do dólar; e isso até que o dólar seja finalmente destronado pelo yuan, até que a moeda do mundo não seja mais o dólar mas na verdade que seja então o yuan.
Até recentemente, todas as matérias-primas importantes eram cotadas em dólares (petróleo, gás natural, carvão, metais, matérias-primas agrícolas,…). Isto tinha como resultado o facto de que os países exportadores recebiam em dólares , e só em dólares, as matérias-primas que eles se comprometiam a exportar e, em seguida, recebiam como contrapartida, o seu valor em moeda americana, o dólar, na data determinada pelo contrato acordado.
Como resultado dessa prática, o dólar estava aureolado com esse prestígio, a moeda mundial, e os bancos centrais dos países terceiros recebiam-no, à vontade, e acumulavam-no tanto quanto podiam como moeda de reserva em quantidades cada vez mais consideráveis.
E essa propensão dos bancos centrais de países terceiros em aceitar estar a moeda americana, acumulando portanto como sendo as suas reservas cambiais os dólares provenientes dos Estados Unidos (depois de terem sido emitidos seja pelos bancos comerciais dos EUA, seja pelo próprio Estado) permitiu ao sistema bancário americano que emitisse dólares amplamente e sem qualquer restrição particular.
É também graças a essa configuração muito especial que o sistema bancário americano foi capaz de financiar desde 2008, os défices colossais e repetidos sem que nem os mercados, nem a economia dos EUA sejam punidos. É a esta posição que se chama o privilégio do dólar.
É também este privilégio que pacientemente, desde 2008, a China começou a questionar antes de estar a procurar agora abatê-lo. E todas as iniciativas enumeradas no início deste artigo são uma peça dessa estratégia.
Porquê uma tal obsessão da China?
Os líderes do Partido comunista chinês não se esquecem de que se a URSS perdeu a guerra fria com os Estados Unidos em 1989, isto terá sido em boa parte porque que, desprovidos do privilégio monetário, a Rússia não tinha a capacidade financeira para responder com uma corrida aos armamentos, a guerra das estrelas, que os Estados Unidos lhes infligiram desde 1982 e que eles financiaram muito facilmente graças ao privilégio do dólar.
Hoje, esses dirigentes chineses estão pressionados seja para acabar com a hegemonia americana seja para dominar o resto do mundo (veja-se o seu comportamento desde 2010 no mar do Sul da China e no mar do China Oriental).
Eles disfarçam cada vez menos a sua intenção de alcançar e de depois ultrapassar o dispositivo militar dos Estados Unidos para lhes infligir uma derrota militar definitiva.
Munidos das lições do período 1982-1989, eles estão bem determinados a retirar ao dólar o seu privilégio de moeda mundial para que este seja atribuído ao yuan.
Assim, na segunda guerra fria na qual estamos agora a entrar e desta forma, será agora a China que estaria equipada com uma alta capacidade para financiar as suas despesas de armamentos e os Estados Unidos, que sofreriam uma grande restrição financeira e que, no momento mais inconveniente, seriam forçados a limitar os seus gastos em armamento.
Em conclusão, há uma articulação muito importante entre as iniciativas monetárias chinesas e as suas iniciativas militares e territoriais.
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Para saber mais veja em : http://www.atlantico.fr/decryptage/internationalisation-yuan-comment-chine-tente-imposer-monetairement-et-ecraser-dollar-antoine-brunet-549560.html#L0Jjtir37fXDv26x.99
