UMA OUTRA NUVEM NEGRA, A OITAVA, PAIRA ENTRE WASHINGTON E PEQUIM E SOBRE TODO O MUNDO TAMBÉM

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

Qilai Shen/Bloomberg News

5. Sobre o Renminbi (Yuan) – parte I

New York Times, 18 de Outubro de 2012

Renminbi (Yuan)

  Actualização: Oct. 18, 2012

A moeda chinesa é o renmimbi, também conhecida como o yuan. Durante mais de uma década, economistas e altos quadros de outros países têm considerado que o governo chinês manteve o valor da sua moeda artificialmente baixo para tornar as exportações do país mais competitivas.

Em 2012, a moeda chinesa tornou-se uma questão importante na campanha presidencial dos Estados Unidos, em que Romney criticou o presidente Obama por não fazer mais para convencer a China a deixar de intervir nos mercados cambiais. Em resposta, Obama disse que era para mais resistente do que Romney seria para com Pequim se ele estivesse na Casa Branca.

Os dois argumentos deixam de nos dar a perceber que a realidade é bem mais subtil: ajustada pela inflação, a moeda chinesa tem-se apreciado consideravelmente depois de Obama ter tomado posse. Alguns economistas, que costumavam ser críticos relativamente à política cambial da China por considerarem que o yuan estava subavaliado, são agora muito menos críticos sublinhando o facto de que o yuan se tinha apreciado em 11 por cento desde que Obama chegou ao poder.

O valor de um yuan subiu até agora 8,5 por cento, para 15,9 cêntimos do dólar, desde que Obama tomou posse. Mas os altos quadros governamentais tendem a seguir a prática de muitos economistas no que se refere às variações cambiais, aos seus ajustamentos cambiais, que são tomadas com base nas diferenças de inflação ao nível do consumidor dos dois países, ou seja, em que a taxa de câmbio é vista pelas autoridades à paridade do poder de compra na sua versão relativa. Os preços ao consumidor subiram um pouco mais de dois pontos percentuais a mais na China do que nos Estados Unidos desde Janeiro de 2009, segundo os dados oficiais, de modo que a valorização do yuan ajustada pela inflação atingiu cerca de 11 por cento. Bem mais portanto do que aconteceu em 2010 e 2011.

 

Mas para toda esta melhoria, mais recentemente estes ganhos têm parado ou têm mesmo estado a diminuir. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas para os Estados Unidos começaram de novo a aumentar, subindo 5,5 por cento em Setembro face ao mesmo mês do ano anterior. Isso reflecte em parte que a procura aumentou com o facto de a economia americana começar a mostrar sinais de recuperação.

Durante 2009 e a primeira metade de 2010, a China interveio no mercado cambial e aí investiu fortemente para bloquear a subida do yuan contra o dólar. A China parecia ter a economia mais saudável do mundo durante a crise financeira global que eclodiu em 2008. A sua moeda teria subido fortemente se a China não tivesse intervindo para controlar o valor da sua moeda.

Como é então lógico, as suas reservas cambiais no banco central aumentaram cerca de 540 mil milhões de dólares em apenas 18 meses. O banco central paga em yuans para adquirir este enorme valor de divisas adquiridas, e em que muito desse valor é constituído por dólares. Esta intervenção do governo é feita, por um lado, emitindo moeda nacional, o renmimbi, e, por outro, forçando os bancos comerciais controlados pelo Estado a terem mais de um quinto dos seus depósitos em renminbi a taxas de juros próximas de zero.

O banco central compensa os bancos comerciais impondo-lhes a todos eles que paguem taxas de juros muito baixas – apenas metade da taxa de inflação – aos seus depositantes.

Os altos funcionários da Administração Obama avisaram na altura que a China se estava a arriscar a criar um processo inflacionista através da emissão de tanto papel moeda. A oferta de papel-moeda na China acabou assim por crescer 55 por cento em 2009 e 2010, muito mais do que o crescimento dos Estados Unidos.

A inflação ao nível dos preços ao consumidor acelerou para alcançar 6,5 por cento em Julho no ano passado – quase o dobro do nível dos Estados Unidos, mesmo antes de se verificar que a China tinha a tendência de subestimar a inflação. Parcialmente, para colocar um travão na inflação sendo que esta faz com que as importações fiquem relativamente mais baratas, as autoridades chinesas permitiram que o yuan começasse a subir no Verão de 2010, depois de um hiato de dois anos.

A combinação de preços mais elevados e de uma apreciação da moeda compensaram muita da subavaliação que instituições como o Fundo Monetário Internacional tinham reconhecido no início da crise financeira global. O FMI reagiu há cerca de três meses em que reclassificou o yuan agora como uma moeda “moderadamente subavaliada” quanto anteriormente a considerava como “substancialmente subavaliada.”

O crescimento económico da China tem dependido de um sector industrial em grande crescimento que beneficia de um yuan barato. Mas a moeda barata tem vantagens e inconvenientes para o país, dizem os economistas, tanto na China como para além dela.

Uma moeda barata efectivamente subsidia as empresas que exportam produtos – e os seus trabalhadores – em detrimento da maioria das famílias chinesas, cujo poder de compra é assim diminuído.

Um yuan mais caro dá às famílias chinesas mais poder de compra, reduzindo o custo das importações para a China. Desta forma também se coloca pressão sobre as empresas chinesas para desenvolverem produtos mais inovadores que comportam empregos mais bem pagos, em vez de a concorrência assentar fundamentalmente via preços[1].

Como resultado, o debate sobre o yuan na China assemelha-se muitas das vezes a uma luta entre grupos de interesses. As autoridades dos Estados Unidos, Brasil, da Europa e de outros lugares têm tentado unir as suas forças para tentarem conseguir que se alcance um yuan mais forte, explicando como é que tal facto levaria a um crescimento mais equilibrado, mais sustentado para todo o mundo.

(continua)

[1] Esta foi a política seguida por Cavaco Silva, Braga de Macedo, António Borges que feita de imediato foi em Portugal uma verdadeira peça para a desindustrialização do país. Estes foram assim verdadeiros coveiros deste país que está a ficar com a liberdade amordaçada, a liberdade de viver dignamente. A esta política os neoliberais chamam a política de desinflação competitiva.

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