SETE NUVENS NEGRAS SOBRE O MUNDO, SOBRE A EUROPA NESTE FIM DE VERÃO, NESTE PRINCÍPIO DE OUTONO DE 2012.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

(CONTINUAÇÃO)

Sexta nuvem

(6) O novo elemento que perturba a economia global – parte V

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6.3 Factores políticos e financeiros no IDE da China

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De forma não muito diferente, mas mais polida politicamente, diz-nos o banco:

 “Com a moderação das exportações e com o aprofundamento da incerteza quanto à evolução do ambiente económico no exterior, a apreciação do yuan, renminbi, foi mais lenta que em 2011. Em termos efectivos a moeda apreciou-se  0,5%  ao longo dos oito meses. O yuan apreciou-se de 5,7 contra o euro e depreciou-se de 0,2% contra o dólar.

Veja-se o gráfico abaixo com a evolução da taxa de câmbio e a evolução da conta corrente:

 

As reservas cambiais cresceram apenas de  forma modesta durante o primeiro semestre  do ano, de  uns não habituais 65 mil milhões  no segundo trimestre de 2012  reflectindo a contracção dos influxos de capital estrangeiro  devido ao aumento de incerteza internacional  e ao crescimento da saída de capitais   devido  à escassez de oportunidades de investimento interno “

A queda nas reservas foi uma reviravolta nada habitual nos dados que inicialmente a Reuters informou teria havido engano no sinal do registo na balança . Um porta-voz  do organismo que publicou o relatório  sentiu a necessidade de dizer que essas saídas não correspondem a uma saída  em  massa para fora do país . As saídas são na China, em qualquer caso, parcialmente bloqueadas pelos mecanismos de controlo de capital. Ainda assim, essa regulamentação não pode bloquear nem as empresas multinacionais, que podem repatriar os seus lucros, nem determinados indivíduos ricos, que viajam com frequência, que mantêm  contas bancárias no estrangeiro  e têm as suas próprias empresas transnacionais. Os indivíduos chineses podem levar até 50.000 dólares anualmente para fora do país sem permissão especial. Victor Shih da Northwestern University avalia que  os 1% das famílias chinesas mais ricas  possuem entre 2 e 5 milhões de milhões de activos  líquidos e de propriedades.

O presente escândalo de Bo Xilai revelou como é que os ricos  funcionários foram ilegalmente enviando dinheiro para fora do país. Há também uma grande especulação sobre uma nova vaga  de dinheiro que poderia sair do país  devido à próxima mudança no governo. Calcula-se que cerca de  70% dos militares de altas patentes  e pessoal dos altos cargos públicos poderia ser substituído ao longo de uma remodelação de uma década. Daí pensar-se em fuga de capitais  mesmo  só por esta via é absolutamente racional.

As famílias mais ricas da China têm frequentemente  bom  conhecimento do estado da economia chinesa, diz-nos o professor  Shih. Se o seu dinheiro está a sair, toda a gente deve tomar nota. Mas Zhiwei Zhang, economista chinês a trabalhar no banco Nomura, um banco japonês, é mais optimista. Ele acha que a saída de capital não é um sinal alarmante em si-mesmo, mas apenas reflecte preocupações de ordem económica  que já são bem conhecidas. Não é nenhuma surpresa que as empresas e os investidores devam reposicionar as suas carteiras de títulos  dadas as decepções no mercado imobiliário da China e a interrupção na subida do valor do  yuan contra o dólar.

Na verdade, a pressão à  baixa do valor de uma moeda é simultaneamente uma causa e uma consequência das saídas de capitais. De Junho de 2010 a Fevereiro deste ano, o yuan valorizou-se  mais de 8% face ao dólar. Desde então, ele tem deslizado caiu  1% ou perto desta taxa. O número de chineses ricos, segundo o “relatório Hurun”, podem estar a crescer fortemente. Mas 10 milhões de  yuans  já não valem o que valiam.

Olhemos para o gráfico seguinte:

Para agravar o cenário de que temos vindo a falar, assiste-se a uma forte especulação a apostar na subida do yuan. Tudo agora  depende também da continuação ou não das expectativas quanto á evolução do  yuan. Segundo Napier, como informa MarketWatch, o comportamento das empresas chinesas têm-se endividado em dólares nos últimos anos, apostando na contínua valorização do yuan.

De acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais, as entidades chinesas contraíram empréstimos no valor de 497 mil milhões de dólares em moedas estrangeiras nos bancos offshore.

Se se alteram as expectativas da evolução do yuan  pode-se desencadear uma corrida a querer cobrir a dívida em dólares potenciando assim a descida do yuan. Mas uma coisa por agora parece certa: há uma crescente especulação acerca da valorização do yuan  e assim em Hong-Kong os depósitos em yuans têm virtualmente deixado de crescer este ano.

Não importa quem é que virá a assumir a nova liderança da China. O certo é que terão de enfrentar um dilema de fundo. Estimular o crescimento e defender uma taxa de câmbio são incompatíveis, advertiu Napier — eventualmente a moeda terá que ceder.

(continua)

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