“Portugal no Festival Internacional de Literatura – 2013, de Veneza”
A Universidade Ca’ Foscari, de Veneza, realiza periodicamente um Festival Internacional de Literatura – Cruzamentos de Civilizações (Incroci de Civiltà). Neste 2013 em sua 2ª. realização, o Festival tem como finalidade apresentar aos estudantes cafoscarinos de literaturas estrangeiras, bem como ao público em geral, autores de clara fama internacional em literatura e em outras artes.
Na edição de 2013, realizada de 10 a 13 do abril apenas passado, foram convidados e
estiveram presentes Luisa Valenzuela, romancista argentina; Adriaan van Dis, holandês, romancista e autora de livros de viagem; Ersi Sotiropoulos, poeta e naradora grega; Alicia Stallings, poeta estadunidense; Michael Ondaatje, romancista canadense; Linda Spalding, nascida nos Usa e passada a viver no Canadá, aonde se casa com o romancista Ondaatje, igualmente ela romancista, bem como ensaísta; a cinematografista Yasemin Samdereli, de nacionalidade alemã e origens turcas; o narrador chinês, autor de romances, novelas e contos, Bi Feyu; a poetisa e narradora japonesa, integrada igualmente na língua e na vida da Alemanha, Yoko Tawada; o narrador afgano, Mohammad H. Mohammadi; as escritoras africanas, Muthoni Garland, do Kenya, e a poetisa e narradora Lola Shonheyn, nigeriana; Sthephen Greenblatt, estudioso de literatura e crítico literário estadunidense; Edmund de Waal, Inglaterra, ensaísta e crítico de arte; duas italianas de origens diversas, a romancista e pintora Gabriella Kuruvilla, de mãe indiana, e a narradora de origens sômalas, Igiaba Scego; o romancista e contista tunisino Habib Selmi; a escritora belga de língua francesa Amélie Nothomb, romancista; o romancista indiano Amitav Ghosh.
Na ampla lista de escritores e artistas presentes no Festival veneziano, Portugal foi representado pelo romancista e estudioso Gonçalo M. Tavares. Apresentado pelo docente oficial de Lingua e letteratura portoghese di Ca’ Foscari, Vincenzo Arsillo, sucessor do prof. Manuel Simões na mesma cátedra por mim inaugurada no ano-acadêmico 1962-63, Gonçalo Tavares dissertou longamente sobre a sua obra literária e sobre os problemas gerais com que se confronta um escritor contemporâneo. Para isso, também contou com a participação do tradutor italiano do seu romance Posição no mundo de Lenz Buchmann, que na tradução italiana tomou o título: Imparare a pregare nell’era della tecnica (Feltrinelli, Milão, 2011), o também estudioso de literatura portuguesa, Roberto Francavilla. Já o título da tradução italiana de Francavilla do romance de Gonçalo Tavares revela de imediato muitos dos ângulos dominantes na fiction do escritor português.
Roberto Francavilla esteve sempre muito ligado a outro estilista de fortes raízes literárias portuguesas, Antonio Tabucchi, recentemente falecido. O Festival de Veneza, no dia de sua inauguração no dia 10 de abril, inauguração que contou com a participação do poeta sírio, Adonis, e do artista italiano Marco Nereo Rotelli, prestou uma homenagem a Tabucchi, com uma intervenção rememorativa de Roberto Francavilla.
Gonçalo Tavares, nascido em Luanda, em 1970, revelou desde a sua estréia que surgia então na litertura portuguesa um novo autor destinado a grandes sucessos, não só nacionais. Desde logo se apresentou como um estilista literário que procurava desvendar os mistérios da escrita com penetrantes instumentos expressivos. A língua literária do autor da Viagem à Índia já despertara o maior entusiasmo de um outro grande estilista, certamente de linhas diversas, que era Saramago. A partir de seus amplos recursos Gonçalo Tavares procura desvendar todos os ângulos de seus personagens, sempre em profundos contactos com os seres e as coisas. Daí resulta um sitema narrativo que, superando quase sempre os perigos próprios de uma indagação formal acentuada, atinge as dimensões igualmente próprias do fazer poético.
De certo modo os romances de grande sucesso, não só de vendas, de Gonçalo Tavares se identificam com o doloroso período por que passa nesse início do novo Milênio a vida européia e nela aquela de Portugal e do homem português.
