Descalços rumo ao 72º Festival Internacional de Arte Cinematográfica
Em Veneza, a primeira semana de setembro é tradicionalmente marcada pelo decorrer do Festival Internacional de Arte Cinematográfica, chegado este ano à sua 72ª edição. Se é verdade que, fora da ilha do Lido onde tudo acontece, nesta última edição a cidade pouco se apercebeu do evento e os jornalistas acreditados e os aficionados do Festival eram menos visíveis do que o costume, por outro lado a manifestação caracterizou-se por uma ligação forte com a dramática atualidade das últimas semanas.
Com efeito, no dia de encerramento do Festival teve lugar a sugestiva “marcha das mulheres e dos homens descalços”, que acabou por envolver centenas de participantes a pé por toda a península italiana, contando só em Veneza com 2.000 pessoas descalças que desfilaram até ao âmago da Mostra. A passarela vermelha foi ocupada por representantes da marcha, incluindo, além de expoentes políticos nacionais, o realizador Andrea Segre, um dos promotores da iniciativa.
A marcha de sensibilização para o tema dos refugiados começou no Lido de Veneza, mas foram 71 as cidades que aderiram, com cerca de 1.500 personalidades políticas, escritores (entre eles Roberto Saviano e os autores presentes no Festival da Literatura que se realizou em Mântua nos mesmos dias), atores e artistas, além de organizações e associações de voluntariado.
Os manifestantes rogaram a certeza de corredores humanitários para as vítimas de guerras, catástrofes e ditaduras, um acolhimento digno e respeitoso para todos, o encerramento dos locais de concentração e detenção dos migrantes, a criação de um sistema único de asilo na Europa, ultrapassando o regulamento de Dublin.
Vale a pena lembrar que foi mesmo no Festival do Cinema de Veneza que no ano passado foi apresentado um filme documentário que antecipava o tema escaldante das migrações na Europa: Io sto con la sposa (On the bride’s side), dos realizadores Antonio Augugliaro, Gabriele Del Grande e Khaled Soliman Al Nassiry. O filme documenta a história de um poeta palestiniano sírio e de um jornalista italiano que em Milão encontram cinco palestinianos e sírios desembarcados em Lampedusa para fugir da guerra e decidem ajudá-los a chegar clandestinamente à Suécia em novembro de 2013. Para tal, encenam um casamento graças a uma amiga palestiniana que se faz passar por noiva e uma dúzia de amigos italianos e sírios, que se fingem convidados. Assim disfarçados, os componentes desta insólita comitiva atravessam a Europa – uma Europa transnacional e solidária, capaz de contornar o desumano rigor das leis – percorrendo três mil quilómetros em quatro dias.
A produção do filme foi possibilitada por uma operação de crowdfunding extraordinariamente bem-sucedida, deixando antever que a solidariedade dos europeus é mais poderosa do que a rigidez das fronteiras e dos “muros da Fortaleza Europa” faz supor, como as manifestações das últimas semanas parecem ter demonstrado. Resta ver se a recente vaga de solidariedade não será sol de pouca dura.