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O 26 DE ABRIL – por Ventura Leite

Quando  no  dia 24 recebi do Carlos Loures o desafio para escrever um artigo sobre o 25 de Abril para o blogue  A Viagem dos Argonautas, senti mentalmente um frio e estranho vazio, pois não me sacudiu nenhuma reacção positiva espontânea ao convite, e não me dei conta imediatamente porquê.

O dia 25 de Abril tem sido por mim dedicado à família e à reflexão, sobretudo depois da minha passagem pela Assembleia da República onde durante quatro anos assisti às celebrações repetitivas do 25 de Abril, e que me iam enterrando cada vez mais numa atitude estranha relativamente aos discursos em torno da efeméride.

O que vou agora partilhar convosco não podia ocupar o mesmo espaço que ontem o blogue  dispensou ao 25  de Abril. De facto, se alguma reflexão ou debateeste meu artigo provocar, o seu lugar e tempo deve situar-se, neste momento, pelo menos, fora do próprio dia 25. Embora eu gostasse de debater este tema nesse  próprio dia, a verdade é que sinto que não há grandes condições anímicas para isso, pois o mais provável é este texto suscitar equívocos e reacções negativas.

Começo com a seguinte provocação: o ciclo do 25 de Abril acabou! Mas, explicando….

O que acabou  não é o seu significado histórico, a sua importância nacional e internacional. Não! Não é isso o que  vou defender. O que quero dizer é que terminou  o processo que o 25 de Abril propiciou. E foi já há abastante tempo! Mais adiante direi quando acho que terminou.

Imaginemos um lago de água límpida e serena para onde atiramos uma pedra. Vemos as ondas de choque partirem em todas as direcções, e potencialmente atingir lugares a perder de vista.

Mas imaginemos a mesma pedra atirada para um lago em que a água está cheia de limos ou outras plantas flutuantes ( para não chegar ao extremo de falar em mistura com  lama). Nesta água as ondas de choque são menores e terminam rapidamente.

Os homens do 25 de Abril deram a Portugal uma oportunidade histórica.

Não o fizeram por nostalgia  dos temos gloriosos da Nação, mas  em resposta aos bloqueios que a então sociedade enfrentava: aos bloqueios da guerra, da destruição material e social que provocava, e do isolamento que trazia para o País no plano internacional, enfim, do desencontro nacional com a História.

As ondas de choque do 25 de Abril chegaram a praticamente a todas as áreas da vida económica, social e cultural. O efeito multiplicador fez-se sentir e a sociedade portuguesa evoluiu em diversas direcções.

Contudo, também se geraram ondas  de sentido contrário, houve limos e outros obstáculos e  resistências aos efeitos potenciais de modernização e progresso da sociedade.

E o que hoje a sociedade portuguesas enfrenta  éum bloqueio complexo  que terá que ser rompido rapidamente, tal como se sentia em 1974.O que é preciso é projectar um País diferente no seio do qual se produza pensamento, mobilização e  acção inovadores. Não é a nostalgia do 25 de Abril que pode produzir isso, porque o contexto e as gerações decisivas são outras. Pelo contrário, um sentimento nostálgico exacerbado relativamente ao 25 de Abril pode produzir sentimentos contraditórios na sociedade portuguesa.

Quando terminou o processo do 25 de Abril na sociedade e na economia portuguesas?

Para mim, o último passo que se pode ligar directamente à oportunidade criada pelo 25 de Abril foi a adesão à então Comunidade Económica Europeia. A própria adesão foiassumida  pela comunidade europeia  como um  reconhecimento internacional pelo País saído do 25 de Abril.

Mas, depois disso, as oportunidades criadas com a adesão à CEE foram aproveitadas sobretudo no plano material.  Não se pode dizer que a sociedade tenha evoluído verdadeiramente, sobretudo em direcção a um  futuro diferente, com base na herança do 25 de Abril.

A classe política e as corporações aliadas, ou cuja colaboração teve que ser comprada, rapidamente absorveram,ou até bloquearam, o potencial das ondas de choque do 25 de Abril.

As pulsões reformistas ao nível do Estado foram contidas, e a modernização foi palavra que perdeu sentido real diante do progresso material evidente e palpável para a maioria das pessoas. As ondas de choque do  25 de Abril cessavam ao nível nacional, permanecendo  como herança viva apenas ao nível dos sectores   mais radicais à Esquerda do espectro político.

A elite política e intelectual voltavam a  evidenciar as  limitações que tinham exibido num  passado mais distante.

O ciclo político do 25 de Abril terminou, assim, depois da integração europeia do País.

Hoje, é ainda a presença entre nós ( felizmente) de muitos dos protagonistas do 25 de Abril e dos que ( onde me incluo)  viveram esses inesquecíveis  tempos,  que  explica a exaltação ( onde me não incluo pelas razões que exponho neste texto) das comemorações do 25 de Abril. Mas há bastante tempo que a sociedade em geral  não vibra com as ondas de choque que foram desencadeadas e as oportunidades  criadas por esse evento histórico. Esse ciclo terminou, portanto, e não pode ser convocado para mudar nada, porque só quando  pensarmos  em termos do  presente e do que queremos do futuro é que podemos produzir pensamento mobilizador e acção transformadora. É a lei da vida.

As celebrações que vemos na Assembleia da República lembram-me  muito mais as celebrações mecânicas que o Estado Novo fazia em certas datas, para manter o edifício de pé, do que representam uma vitalidade da classe política actual.

O queainda  resta( mas pouco) do edifício da esperança criada com o 25 de Abril localiza-se sobretudo no Texto da Constituição a que alguns se agarram como se das tábuas de Moisés se tratasse. Como se o futuro da nossa democracia estivesse assegurado por aquele texto constitucional.

Aquele texto nada garante hoje aos portugueses, assim como nada impediu relativamente aos desmandos da classe política que nos trouxeram à actual crise.Impediu, muito provavelmente,apenas abusos  mais extremos da classe política, mas isso é pouco quando vemos como a classe política ( anterior e actual governos) procura enfrentar este momento histórico.

A nossa  Constituição não passa de  um edifício do qual restam paredes, mas que pouco ou nada podemos esperar dele para resolver o que quer que seja da actual crise.

O futuro deste País está nas mãos das futuras gerações, e as perspectivas não são boas se atendermos ao que estamos a deixar a essas gerações.

Não é um problema apenas português, é certo, mas isso não é consolo.

Anteontem lembrei o triste exemplo de Itália, e hoje lembro a França onde  a Esquerda promoveu um evento com repercussões sociais  profundamente divisionistas por causa da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção de crianças por casais homossexuais.  Não quero  ( mas não temo!) entrar no debate sobre o tema, nem  desvalorizar a importância que possater para uma determinada e respeitável  minoria da população. Mas quero enfatizar um ponto. A fraqueza e mediocridade da Esquerdaao  elegernesta altura como tema central das suas  prioridades  um assunto que julga poder ser  tratado como se a Esquerda estivesse a pôr  fim à escravatura ou ao apartheid.

É preciso não nos iludirmos. Não é o facto de vivermos num regime democrático que assegura uma classe política competente, honesta e dinâmica.

Em conclusão, os jovens, tais como o eram os militares de Abril de 1974, têm que entender que, apesar das boas palavras, a actual classe política  tornou-se, tal como no passado, o maior problema e o maior obstáculo à saída de Portugal da actual encruzilhada histórica.

E esses jovens irão agir, não por saudosismo do 25 de Abril, mas em desespero pela situação sem esperança. No passado milhões tiveram que sair do País. Hoje já são centenas de milhares que o fizeram, em muito pouco tempo, para vergonha duma classe política sem vergonha.

Quem pôde assistir ao programa Negócios da Semana de 24 de Abril, pôde ouvir alguém – que esteve já neste governo- confirmar o inimaginável em termos de cumplicidade entre o poder político e os negócios, neste caso na área da energia ( eu próprio denunciei alguma coisa no mesmo sentido em 2010, naquele programa).  E não se trata apenas de denúncia relativa a este governo, como também ao anterior. A quem não viu, recomendo vivamente que procure ainda vê-lo.

Meus caros

O meu maior respeito, admiração e gratidão por  aqueles que enfrentaram o regime anterior: Os Militares de Abril, e outros que caíram nas mãos da PIDE.

Contudo, este meu texto  é uma abordagem do que não podemos retirar hoje do 25 de Abril, mas não por sua culpa.

É um modesto contributo para a reflexão e debate que possa fazer alguma luz diferente sobre o que nos interessa mais: o País e as futuras gerações.

Só num ambiente ( intelectual, para já) diferente, mesmo que em transição, pode ser produzido pensamento mobilizador para uma acção transformadora desta realidade. É isso que quero partilhar convosco.

Saudações

Ventura Leite

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