O termo escrache tem circulado em Espanha para designar manifestações, geralmente pacíficas, feitas junto da residência ou do local de trabalho de alguém que se quer denunciar. Tem sido usado, por exemplo, pela PAH, Plataforma dos Afectados pela Hipoteca, contra os abusos dos bancos. Mas começou a ser utilizado na Argentina e no Uruguay, por grupos defensores de direitos humanos, nomeadamente por apoiantes de vítimas da violência das ditaduras que reinaram naqueles países.
Javier Marías, em 28 de Abril, em El País Semanal, na sua coluna La Zona Fantasma, escreveu um texto, Denigradores que se denigran, afirmando estar em desacordo com esta prática. Explica-se dizendo que, por muito má que seja a qualidade dos governantes, os riscos que implica são enormes, pois se hoje se aplica por causas muito justas, amanhã pode ser usada em situações completamente diferentes. Marías refere ainda que pode vir a ser usada em situações de delação de indivíduos, a quem se reprova, com razão ou mesmo sem ela, uma determinada prática.
Na realidade, as observações de Marías poderiam ser generalizadas a outras manifestações públicas. Quando sepromovem manifestações junto de residências de titulares de órgãos de soberania, ou mesmo junto dos locais onde estes funcionam, para contestar a sua actuação, está-se a fazer pressão sobre eles, sem dúvida. Pode-se ter mais ou menos razão nessas manifestações, mas não reconhecer esse direito é retirar às pessoas, aos cidadãos, um meio de demonstrar o seu desagrado. Ir até às residências particulares dos responsáveis políticos, poderá ser desagradável e incómodo para estes, mas é uma maneira eficiente de lhes lembrar e contestar a invasão (as invasões!) que fazem à nossa vida, no exercício nos enormes poderes que detêm. E igualmente nunca será correcto pretender que os titulares de certos organismos, públicos ou privados, não eleitos (não é só o Gaspar!), mas com grande influência sobre as nossas vidas particulares, como é o caso dos proprietários e dirigentes de bancos, hospitais e outros, possam estar isentos das pressões que resultam do direito à manifestação dos cidadãos.
Existe evidentemente o bullying social, que se manifesta, por exemplo, nas perseguições às minorias. Por isso é fundamental a destrinça entre boas causas e más causas. Para combater as falhas nessa destrinça, que não pode ser arbitrária, e exclusiva de certos areópagos, são precisos o reforço das liberdades, da transparência na informação e na comunicação, e a aceitação dos valores da tolerância e do convívio.
Enquanto houver uma diferença entre governantes e governados, os primeiros deverão aceitar as pressões dos segundos, que sejam manifestadas com clareza de objectivos, e dentro de princípios de interesse geral. Neste campo, como noutros, nada é perfeito. Mas isso não é motivo nada se fazer.


