A METÁFORA DE “O PAÍS DAS PESSOAS DE PERNAS PARA O AR” DE MANUEL ANTÓNIO PINA por Clara Castilho
clara castilho
Em Livro & Livros cabem todo o tipo de textos que se refiram ao livro – referências a todas as profissões e ciências da edição, a todos os pontos do circuito desde o fabrico à venda, do autor ao leitor, passando às vezes pelo alfarrabista… Naturalmente que os livros que temos em casa também podem ser objecto de atenção – Clara Castilho pôs-se a arrumar os livros e…
Tempo de arrumação… mais um livro que há muito não folheio. Mas que adorei quando foi editado – 1973, pela Regra do Jogo. Já não era criança, mas o livro é daqueles que também são muito apreciados pelos adultos. Hoje, percebemos isso, mas temos que nos lembrar no que se passava na altura no país… E voltou a ser reeditado em 2011, pela Tharan. O conto que dá o título ao livro pode ser ouvido no vídeo abaixo. Fixar-me ei nas duas histórias em que o Menino Jesus é o protagonista. Deliciosas!
O Menino Jesus não quer ser Deus
O menino Jesus não fugia à escola. Os outros meninos juntavam-se para fazer maldades, o menino Jesus ficava sempre de fora. Os meninos tinham pena dele, mas tinha que ser assim: ele era Deus, e Deus não pode fazer determinadas coisas. Por isso, o menino Jesus não ia para o rio roubar fruta, nem dizia coisas indecentes. Nem sequer podia jogar à bola com os outros, porque fazia sempre milagres.
Até que um dia o menino Jesus foi ter com S. José e disse-lhe:
– Pai, não quero ser mais Deus.
– Isso não é comigo, é com a tua mãe.
Foi ter com a Virgem Maria. Mas ela disse-lhe:
– Agora já és Deus e pronto. Já não se pode fazer nada. Tu hás-de habituar-te, a mim a princípio também me meteu confusão. E agora vai estudar, porque amanhã tens que ensinar os doutores da lei.
O menino Jesus ficou muito triste e nessa noite não estudou nada. O milagre dos doutores por pouco ficava estragado. Nossa Senhora zangou-se e disse-lhe que o acusava à pomba. Mas ele, como era Deus, sabia tudo; portanto, sabia que as pombas não fazem mal a ninguém e ria-se da Virgem Maria. S. José também lhe dizia:
– Não metas medo ao rapaz. Não te calas com o diabo da pomba, tu és mas é maluca.
E ela muito zangada, respondia-lhe:
– Não tens nada com isso. Ainda se o menino fosse teu filho, mas não. Falas só para questionares, és mau. Daqui a pouco começas para aí a dizer porcarias.
Mas estas discussões acabavam sempre bem, porque o menino Jesus fazia um milagre.
(…)
O bolo e o menino Jesus
“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:
– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.
Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste. Depois é que pensou que os bolos não ficam tristes e deixou de estar triste. E depois também pensou que os bolos – mesmo os cobertos de açúcar – não pensam, e não pensou mais no assunto.
Entretanto, o menino Jesus disse para o S. José:
– Pai, dá-me aquele bolo coberto de açúcar para eu comer.
Mas S. José disse:
– Não, porque tu és Deus e a gula é um pecado muito feio.
O menino Jesus ficou muito assustado e esqueceu-se logo do bolo. Foi para casa todo o caminho a pensar nos 7 pecados mortais e, à noite, não era capaz de dormir cheio de medo.”