“CADERNOS DE BERNFRIED JÄRVI” de RUI MANUEL AMARAL por Clara Castilho

 

É uma edição da SNOB, de dezembro de 2019. 

Rui Manuel Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive. Foi fundador e coordenador literário da “Águas Furtadas”, revista de literatura, música e artes visuais. É autor dos livros “Caravana” (Angelus Novus, 2008) e “Doutor Avalanche” (Angelus Novus, 2010) e Polaróide (Língua Morta, 2015). Traduziu Oliverio Girondo, Francisco Tario, Virgilio Piñera e Ruben Darío. Editou Konstantinos Kaváfis, Antonin Artaud, Daniil Kharms, Felix Fénéon, Charles Cros, Alphonse Allais, entre outros.

Esta noite sonhei com um livro. Esta noite? Não. Não esta noite. Há várias noites, há muitas noites, há muitas, muitas noites que sonho com um livro. O livro-furacão. O livro-vendaval. O livro-inundação. O livro-incêndio. O livro-guerra. O livro-explosão. Não o «livro — traço — explosão», mas o livro-explosão-colossal-e-infinita. O livro-onda-gigante. O livro-tremor-de-terra. O livro-lava. O livro-canibal. O livro-grito. O livro-sussurro. O livro-sopro. O livro-sufoco. O livro-punho-fechado. O livro-mão-aberta. O livro-faca-apontada-ao-coração. O livro-contra-luz. O livro que está cheio de vozes. O livro que é a minha cabeça. O livro que é a minha carne. O livro que é nada.
Com pausas para fumar cigarros, com certeza.

[..] Debruçado sobre a folha ainda em branco, escuto a respiração das coisas à minha volta. Mesa, papel, caneta, livros, pó. Todas as coisas a respirar na sua maneira muito particular de inspirar e expirar, inspirar e expirar. Um relógio invisível bate uma hora misteriosa e carregada de significado. A noite está cheia de possibilidades. As coisas começam então a adquirir um brilho próprio. Um brilho vivo como nunca possuíram. Cada papel, cada livro, cada caneta parece possuir a sua própria luz, querendo elevar-se no ar como uma estrela. (…) Pode-se imaginar quanta claridade há agora no quarto.

António Cabrita , em “Hoje Macau” ( 21/08/20) dá-nos a sua opinião: “Numa pulsão diarística, o livro expõe uma sensibilidade que parece nascida de uma liga que fundisse Bernardo Soares, Kafka (o dos Diários), os delírios de Arlt, e os cafés de Cela (o de A Colmeia), com uma especiosa precisão na linguagem e recursos imagéticos tanto mais ricos quando “acontecem” de um modo imanente, “como quem não quer a coisa”.

Aliás, de x em x páginas a narrativa é interrompida por uma irónica “manobra de abrandamento das espectativas” que introduz blocos informativos (O que são as nuvens?/ Como se originam as nuvens?/ Qual é a causa da neve?/ Porque não damos pelo movimento de rotação da terra?/ Que efeitos produzem os eclipses nos homens, nos animas e nas plantas; etc.), os quais, à maneira de um flaubertiano dicionário de ideias feitas, nos pretendem advertir sobre a inutilidade de esperar-se demais da narrativa ou do putativo personagem que é o polinizador destes cadernos. Entretanto, degustamos (inúmeros) fragmentos como este:

Mais uma noite sem dormir. Para não enlouquecer, fecho os olhos e imagino-me a arrancar ervas daninhas num jardim. Imagino os dedos a envolver cada caule e a força exercida pela minha mão para desenterrar os filamentos vivos da terra. O mesmo gesto, uma e outra vez, toda a noite até o pálido rubor da aurora estremecer perto dos subúrbios de Aachen.

O jardim é muito amplo e há uma quantidade infinita de ervas daninhas: cardos, chicória, beldroegas, trevo branco, funcho, dentes-de-leão. De quando em quando, por entre o verde exuberante das folhas, avisto a sombra indolente de um gafanhoto, um escaravelho em fuga, pequenos objectos, abundantes tesouros: pregos, cacos, vidrinhos afiados, uma chave. Mas não me deixo distrair do meu objectivo. Perto das seis da manhã, exausto, emocionado, orgulhoso, contemplo a minha obra.

Diogo Vaz Pinto, no ionline ( 03/01/2020)  afirma:

“O tão espantoso artificio deste livro é a consciência do vínculo com o leitor, a noção de que não se é um homem desta época, mas mais um bicho que a segrega como uma casca e que, sentindo-a demasiado frágil, inóspita, busca uma coisa melhor. E a escrita é esse modo de interrogar-se, de desistir e retomar o problema, rodeá-lo. É a escrita daquelas figuras irredutíveis a uma ficção extraordinária e que ensaiavam as suas fulgurâncias e até o exotismo das suas mentes contra o pano de fundo de umas ordinarices existenciais.”

[…] Estamos, assim, como acontece hoje raramente, perante uma obra que nos belisca, que se interrompe, faz pausas para fumar, para se siderar, que entretece enigmas, pilhérias, anedotas que dispensam os modos gerais do riso, incomodidades, cartas de amor amachucadas, deitadas fora, retomadas; gavetas e mais gavetas, uma floresta de papéis que havia ficado soterrada e que, com uns furinhos no solo, volta a respirar. E nas suas refracções, nas personagens que se revezam relançando a linha – além de Bernfried Järvi, temos Milo, Matthäus Geschke ou Pagreus –, o narrador encena aqueles modos de uma escrita como antídoto, um talento incerto para abdicar do modo de composição mais verosímil, salvar-nos da esterilidade de um realismo imbecil, para nos entregar a uma desordem enunciativa que é outra forma de reger o mundo, quando, mais do que sentido, do que este precisa é que lhe dêem corda.”  

A Flop estará na Feira do Livro de Lisboa  no Pavilhão C63.

 

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