À hora em que escrevo não sei como irá decorrer a manifestação que foi proibida nos moldes habituais – a pé – e transformada em móvel – de camionete a percorrer a ponte 25 de Abril (a manifestação a que Irene Pimental chamou “…que paga portagens”).
E por 25 de Abril, e por fazer um ano que Manuel António Pina nos deixou, lembrei-me do seu livro O Tesouro publicado pela primeira vez em 1994, pela Associação 25 de Abril e pela APRIL, com desenhos de Manuela Bacelar. É recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 3º Ano de Escolaridade. Em 1999, nos 25 anos do 25 de Abril, deu origem ao premiado filme de João Botelho: Se a Memória Existe. Outra edição, da Campo das Letras, em 2005, teve ilustrações de Evelina Oliveira. E uma última, e deste ano, tem desenhos de Pedro Proença e é publicada pela Assírio e Alvim.
Há muitos anos, no tempo em que o teu pai andava na escola, num país muito distante vivia um povo infeliz e solitário, vergado sob o peso de uma misteriosa tristeza.… O povo daquele país tivera em tempos um imenso e belo tesouro e que alguém lho roubara. Era um tesouro tão grande e tão valioso que, sem ele, não podiam ser felizes (e que era a liberdade).… a liberdade é como o ar que respiramos, só quando nos falta, e sufocamos cheios de aflição, é que percebemos que sem ele não podemos viver.
…naquele país as pessoas não podiam fazer o que queriam, nem podiam dizer o que pensavam ou o que sentiam … nem sequer podiam contar esse segredo a ninguém, porque seriam presas ou até mortas.… E os meninos do País das Pessoas Tristes não podiam ouvir as músicas, nem ver os filmes, nem ler os livros e revistas de que gostavam, mas só as músicas, os filmes e os livros que não eram proibidos. Nem sequer beber Coca-Cola, porque a Coca-Cola também era (ninguém sabia porquê) proibida!
….Até que um dia chegou em que, no País das Pessoas Tristes, as pessoas decidiram reconquistar o seu tesouro. …Esse país chama-se Portugal e é o teu país. E o tesouro pertence-te a ti, és tu que tens que cuidar dele, guardando-o muito bem no fundo do teu coração, para que ninguém to roube outra vez.
Para além do muito que Manuel António Pina poderia ter escrito durante este anos, se ainda fosse vivo, do que mais tenho saudades é das suas crónicas que apontavam os podres, ironizavam com certas particularidades da nossa vida colectiva, nos faziam sorrir e admirar a sua serena sabedoria.