Em Lisboa, Silva Pinto arrasta o poeta Cesário Verde para a boémia revolucionária no “Martinho” das mesas espelhentas. Alto, magro, louro, ativo, sensual, Cesário tem boa figura, seduzem-no e seduz mulheres, mas as que mais o fascinam são atrizes, a Luísa Cândida – do “Condes” – , a Palmira de Souza – do “Variedades” – , e ainda a Tomásia Veloso, com quem, ao que parece, terá um romance. Fialho de Almeida irá descrevê-lo. Assim:
“O tipo era seco, com uma ossatura poderosa, a pele de fêmea loura, rosada, de bom sangue, a cabeça pequena e grega, com uma testa magnífica, e feições redondas, onde os olhos amarelo pardos de estátua, ligeiramente míopes, tinha a expressão profunda, rectilínea, longínqua, que a gente nota nos marítimos acostumados a interrogar o oceano por dilatadas extensões.”
E aí vem uma atriz, talvez a Tomásia, a saltitar por entre as obras de uma rua. Cesário assopra:
E aos outros eu admiro os dorsos, os costados Como lajões. Os bons trabalhadores! Os filhos das lezírias, dos montados; Os das planícies, altos, aprumados; Os das montanhas, baixos, trepadores!
Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto, Furtiva a tiritar em suas peles, Espanta-me a atrizita que hoje pinto, Neste Dezembro enérgico, sucinto, E nestes sítios suburbanos, reles!
Como animais comuns, que uma picada esquente, Eles, bovinos, másculos, ossudos, Encaram-na, sanguínea, brutamente: E ela vacila, hesita, impaciente Sobre as botinhas de tacões agudos.
Porém, desempenhando o seu papel na peça, Sem que inda o público a passagem abra, O demonico arrisca-se, atravessa Covas, entulhos, lamaçais, depressa Com os seus pezinhos rápidos, de cabra!