Releio Malraux. Quando Perkens, uma das suas personagens, compara o tempo a um cancro, recordo os versos de Cesário Verde escritos em 1874:
Vai-nos minando o tempo – o cancro enorme Que te há-de corromper o corpo de vestal.
Coincidência? Pouso o livro, pego noutro. Folheio Las Uvas y el Viento de Pablo Neruda, editado em 1954. No poema Lámpara Marina, diz o chileno:
Cuando tú desembarcas en Lisboa (…) las casas, las puertas, los techos, las ventanas salpicadas del oro limonero. (…)
E então lembro-me dos versos de Cesário escritos em 1879:
E o sol estende, pelas frontarias, Seus raios de laranja destilada.
Coincidência, ao repetir-se, deixa de o ser. Mastigo a dedução e é quanto basta para saltar para a segunda metade do século XIX em busca do realista, do impressionista, do poeta conciso tão ignorado pelos seus contemporâneos. É o que normalmente acontece àqueles que se afastam do rebanho das convenções. Fernando Pessoa conhece bem tais desencontros. No Livro do Desassossego irá escrever:
“Vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.” ________________________________________