BOÉMIA VERDE – por Fernando Correia da Silva

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Em Lisboa, Silva Pinto arrasta o poeta Cesário Verde para a boémia revolucionária no “Martinho” das mesas espelhentas. Alto, magro, louro, ativo, sensual, Cesário tem boa figura, seduzem-no e seduz mulheres, mas as que mais o fascinam são atrizes, a Luísa Cândida – do “Condes” – , a Palmira de Souza – do “Variedades” – , e ainda a Tomásia Veloso, com quem, ao que parece, terá um romance. Fialho de Almeida irá descrevê-lo. Assim:

“O tipo era seco, com uma ossatura poderosa, a pele de fêmea loura, rosada, de bom sangue, a cabeça pequena e grega, com uma testa magnífica, e feições redondas, onde os olhos amarelo pardos de estátua, ligeiramente míopes, tinha a expressão profunda, rectilínea, longínqua, que a gente nota nos marítimos acostumados a interrogar o oceano por dilatadas extensões.”

E aí vem uma atriz, talvez a Tomásia, a saltitar por entre as obras de uma rua. Cesário assopra:

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados;
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a atrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa
Com os seus pezinhos rápidos, de cabra!

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