
I
Quando os ingleses desembarcaram em França, o governo de Sua Majestade Britânica forneceu-lhes, além dum solidíssimo par de botas e de um excelente capote, um pequeno dicionário das frases mais usuais em França. Os ingleses, para beberem bass e stout, venderam as botas, o capote, e deram o dicionário como gorjeta às meninas dos estaminets que, invertendo as colunas e o destino do livro, aprenderam a fingir que falam inglês.
Os tommies criaram, para se fazerem compreender em território francês, uma língua especial composta de quinze ou dezoito palavras, pela qual se têm à maravilha entendido com os indígenas durante os quatro anos de guerra: Os seis vocábulos fundamentais dessa língua são: pas compris, compris, no bonne, bonne, finish e tout de suite.
Um flamengo pilha um escocês de saiote a roubar batatas num campo? Furioso exclama em francês ou em patois:
― Bandido! Ladrão! Vou já queixar-me ao provost-marshall…
Com a mais serena das fleumas, o filho da verde Erin sorri e replica, voltando as costas:
― Provost-marshall? Pas compris.
Em compensação, se num acantonamento uma velha madame leva uma Anzac até um fofíssimo molho de palha ao fundo dum estábulo, ele, com o seu melhor sorriso ao léu, exclama:
― Coucher! Bonne! Tout de suite…
Ir para o descanso é três bonne. Ter de sair do estaminet às seis da tarde é no bonne. Ter morrido, ter bebido a última pinga do copo de cerveja, ter acabado uma tarefa, estar seu um penny no bolso, tudo isso é finish. A que vinham, pois, os dicionários do governo de Sua Graciosa Majestade?
Escusado será dizer que aos portugueses desembarcados na Flandres não se distribuíram dicionários. De resto, a maior parte não sabia ler. O mesmo seria entregar uma viola francesa a um hipopótamo.
“Isto é rapaziada que noutro tempo foi à Guiné, às Angolas, à Índia, e sempre se soube entender” ― disseram consigo os desorganizadores da nossa participação.
Os “lãzudos”, ao pisar o solo da Gália, tiveram pois que tratar de se governar como pudessem.
Nos primeiros dias, um muito desconsolado escrevia à família: “Nesta terra em que só os cães falam como a gente… “; mas pouco a pouco lá foram indo. A gente da terra conversava naquela linguagem com os verbos no infinitivo, que usam os palhaços franceses nos circos e os professores do método Berlitz nas primeiras lições: ― Vous asseoir! Vous sortir!… O patois da Flandres, onde há séculos correram aventuras espanhóis e até portugueses, conserva vestígios dessas passagens. Uma vaca é uma vacque, uma cadeira, uma caiere, e quantos outros termos semelhantes. Com isso e com as dezoito nossas palavras da língua do pas compris começou Folgadinho a acamaradar com as meninas da região, e até com os ingleses. Não era de estranhar ver taratas nossos de braço com tommies, passeando e conversando. O quê? Não lhes sei dizer; mas conversavam horas seguidas, faziam negócios em que os ingleses eram sempre explorados, e contavam histórias que nunca consegui perceber. Com o andar do tempo fizeram-se grandes progressos entre os nossos. Hoje falam francês pelos cotovelos, e até escrevem, benza-os Deus.
