Site icon A Viagem dos Argonautas

NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 97 – por Manuela Degerine

(Conclusão)

Traduttore, traditore (parte II)

Ia no terceiro capítulo de “Seda” quando concluí que o mais interessante eram as extravagâncias da tradutora: Simoneta Neto. Que será competente noutras matérias, o origami, a escultura de buxos, a criação de podengos, mas não na tradução em português. Entretanto devolvi o livro à minha amiga, por isso não posso dar outros exemplos, que constituiriam matéria para um curso de tradutores, contudo basta uma palavra de que me recordo bem.

Imagine o leitor a situação… Em meados do século XIX, Hervé Joncour, o protagonista de “Seda”, chega à propriedade de um japonês, homem rico e refinado, o qual possui algo que é – entre outros – um emblema do poder: a imensa gaiola dos pássaros exóticos. Os profissionais ora empregam “viveiro” ora o galicismo “volière” para designar estas construções. Na Internet podemos ler, no português do Brasil, uma explicação: “As gaiolas são menores do que os viveiros e fáceis de carregar, enquanto os viveiros são construídos em locais fixos”. Para cativeiro das aves, a nossa língua dispõe portanto de “gaiola” (pequena e transportável), de “viveiro” (grande espaço fixo e fechado onde os pássaros podem voar), de “pombal” (para pombos), de “galinheiro” (para galinhas), de “capoeira” (para galinhas, patos, gansos…), de “aviário” (para produção de carne ou ovos)… Tentemos agora adivinhar qual a opção da tradutora. Gaiola? Viveiro? “Volière?” Pombal? Galinheiro? Capoeira? Aviário?…

Pois foi a última palavra.

O leitor terá decerto passado junto de um aviário. Lembra-se do cheiro? Empregando os três adjetivos num superlativo máximo, imaginemos por conseguinte o japonês fino, sensível e poderoso – com um aviário no meio do parque. Logo: acrescentemos os cacarejos, os excrementos, os motores dos camiões, não há aviário sem camiões. E por aí adiante, a música dos camionistas, os cartazes com “pin ups”… Embora isto se passe no século XIX. Fica o leitor perplexo. Fica o parque poluído. Fica a cronologia baralhada. Quanto à elegância do esteta nipónico… Que é dela? Transforma-se o jardim num espaço kitch. E sobretudo inverte-se o que seria um signo do poder.

Claro que, eu sei… O “Dicionário da Língua Portuguesa” de Cândico de Figueiredo, edição de 1981, por vezes claramente mau, define “aviário” como “viveiro de aves”. O “Dicionário da Língua Portuguesa” da Porto Editora, edição de 1996, propõe a mesma definição; os dicionários portugueses citam-se com frequência uns aos outros. No entanto “aviário” constitui neste contexto um erro que nenhum português com mais de oito anos pode fazer. (O dicionário é uma obra que sabe muito menos e muito mais do que qualquer locutor da língua.)

Em França as editoras têm funcionários e revisores que não deixam passar estas fantasias, em Portugal é raro, mas no caso de “Seda” apraz-me pensar que houve uma intencionalidade, pois somos forçados a concluir que, pelas surpresas, aberrações e perplexidades em que lança os leitores, a tradução melhora o texto original, acrescentando bizarrias que lhe faltam e criando no leitor uma expectativa alheia a este texto, certo, mas que não deixa de enriquecer a leitura, de estimular a atenção e a imaginação… É provável que agora, se encontrar esta edição de “Seda”, eu venha ainda a comprá-la. Iniciarei uma coleção nova: a das traduções criativas. (É por estas e por outras que a bibliomania não tem cura.) Esperemos contudo que Simoneta Neto não trate da mesma maneira os textos de Umberto Eco.

Exit mobile version