NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 96 – por Manuela Degerine

Traduttore, traditore (parte I)

Em Paris evito a passagem por algumas ruas. É que me conheço: não resisto à tentação – às múltiplas tentações – de uma livraria. E conheço sobretudo, de sobra, as quatro divisões onde vivo. No corredor uma estante de dez metros de comprimento por três de altura, suas tábuas com duas carreiras de livros uma à frente da outra e, sempre que possível, volumes entalados por cima destes, outras estantes em cada assoalhada, pilhas de livros na entrada, na sala, no quarto, no escritório, na casa de jantar… Malas com livros para Lisboa ou para Tomar… Não, não posso comprar mais livros.

Tento portanto dominar a minha bibliodependência. Conto as semanas – compridas – de vitória, passo triunfante na rua paralela ao boulevard Saint-Michel (e suas Gibert), rodeio a rua de l’Odéon (e seus alfarrabistas) porém, de repente, numa viela obscura, deparo com uma livraria e então, só para me informar, conhecer Paris, ultrapassadas as vulnerabilidades, que começo a não entender, entro sem apreensão. Uma vez lá dentro: o autor, a capa, o título… Sucumbo. Pela última vez.

Ora sinto hoje um grande alívio. Percebi que – ao menos – em Lisboa entro (ou não) nas livrarias sem sofrer. Não era assim antigamente… Todavia, há quatro, cinco anos, talvez um pouco mais, desde que os livros saem das mesmas editoras, duas ou três, têm capas horríveis, sendo a maioria traduções trapalhonas de “bestas céleres” – deixei até de entrar nessas livrarias. Não me sinto tentada. Sei que autores nacionais encontrarei. E não leio traduções portuguesas…

– Não lê traduções? Ora porquê?!

É que, respeitado leitor, em Portugal as traduções são traidoras, são por vezes até prodigiosas… Chegam a ser o atrativo único de algumas daquelas obras. Em Portugal dá-se a traduzir um texto literário ao marido da prima – porque está desempregado. O senhor não conhece a língua original, não conhece o português, menos ainda o autor, a obra, o que é literatura… Pouco importa: traduz. Faz um trabalho equivalente ao que lhe pagam.

Há cerca de quatro anos uma amiga falou-me de “Seda”, de Alessandro Baricco, publicado em Portugal no ano de 1998.

– Leste?

– Não.

– Leva-o! Gostei tanto… Quero que me digas o que pensas dele…

Por o ter folheado em Paris, na versão francesa, ter lido alguns parágrafos, suspeitava que não me agradaria, trouxe-o contudo para casa, não querendo ser indelicada, sem me esquecer de prevenir: tenho pilhas de livros prioritários. Em cada casa. Em cada divisão. Ora há algumas semanas, fazia limpezas em Tomar: encontrei “Seda”. Lembrei-me de ter prometido lê-lo e, como acabava de concluir uma leitura, comecei de imediato aquela.

(Conclui amanhã)

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