
Ondjaki foi-me “apresentado” por uma médica nascida em Angola e grande apaixonada pela sua literatura actual. Cheguei a convidá-lo para vir falar num encontro que organizámos no ano de 2000, mas a sua agenda não o permitiu. Passaram-se mais 12 anos e a sua fama continuou. Este livro – “Bom dia camaradas”- é da Editorial Caminho, Lisboa 2003.
Na lombada do livro, o autor escreve: “ Infância é um antigamente que sempre volta.
Este livro é muito isso: busca e exposição dos momentos, dos cheiros e das pessoas que fazem parte do meu antigamente, numa época em que angola e os luandenses formavam um universo diferente, peculiar. Tudo isto contado pela voz da criança que fui; tudo isto embebido na ambiência dos anos 80: o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cantado de manhã e a nossa cidade de luanda com a capacidade de transformar mujimbos em factos. Todas estas coisas, mais o camarada antónio… Esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas. Permitiu-me fixar, em livro, um mundo que é já passado. Um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar”.
Quem é Ondjaki? De seu nome Nadlu de Almeida nasceu em Novembro de 1977 em Luanda. Começou por utilizar as sebentas da escola para elaborar os seus primeiros textos. Viria a assinar as suas obras com o pseudónimo Ondjaki, palavra que em “umbundu”, significa literalmente «aquele que enfrenta desafios» . O escritor informou que era para se ter chamado Ondjaki, mas que à última hora os seus pais decidiram mudar-lhe o nome. Quando conheceu a escrever achou bem pegar nesse nome que outrora lhe estivera destinado.
Poeta e prosador, também escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (“Oxalá cresçam Pitangas – histórias de Luanda”, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos. Alguns dos seus livros foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e chinês. Tem publicado contos, romances, novelas, poesia, literatura infantil.
De entre vários prémios, destaco:
-Finalista do prémio “Portugal TELECOM” (Brasil, 2007), “Bom dia Camaradas”. -“Os da minha rua” (contos), Grande Prémio APE (Portugal, 2007) -Finalista do prémio “Portugal TELECOM” (Brasil, 2008), “Os da minha rua”. – Grinzane for Africa Prize – Young Writer (Italia/2008).
São deliciosas as passagens em que uma criança se confronta com os poderes estabelecidos e as regras exageradas dos cidadãos perante os seus representantes que passam na rua:
“Ao pé da porta de saída das pessoas havia uma pequena confusão, vi os FLAPAS a correr, pensei já que ia sair tiro”(pág. 37); “Não consegui mais ver o macaco, começou uma pequena confusão, o outro FLAPA chegou perto da senhora e tirou-lhe a máquinas das mãos.”(pág.38); “(…) em Luanda não se podia tirar fotografias assim à toa.” (pág. 38)
“Não podes tirar fotografias àquele macaco…, por razões de segurança de Estado “(pág. 40); “ – Pois… Escapaste é ver a cerimónia de tiros que ia haver se algum FAPLA te visse a mexer”(pág. 53).
A questão da relação com a União Soviética aparece aos olhos das crianças como algo incompreensível: “- Mas porque é que essa praia é dos soviéticos? – Não sei, não sei mesmo… se calhar nós também devíamos ter uma praia só de angolanos lá na União Soviética!”
A questão dos cartões de abastecimento também aparece, cheia de ironia quando comparada aos cartões multibancos. E a relação com os ex- “criados”, com a vida antes da descolonização. E a amizade, e os primeiros amores…
Ondjaki recentemente, voltou a ganhar outro prémio, com o livro “Bicicleta Que Tinha Bigodes atribuído pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil brasileira que o escolheu como o melhor título destinado a crianças e jovens, aparecido no ano de 2012. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil é a secção brasileira do International Board for Young People (IBBY) e atribui prémios desde 1975.
Por sua vez, em Portugal, já lhe tinha sido atribuído o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância.
Ondjaki considerou: “É bonito ver um livro angolano chegar a outras culturas”.
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