(Continuação)
Vejamos o quesobreissonosdiz o Instituto Roosevelt(Franklin D. Roosevelt, Presidencial Library and Museum, FDR: From Budget Balancer to Keynesian, A President’s Evolving Approach to Fiscal Policy in Times of Crisis, disponívelem: http://www.fdrlibrary.marist.edu/aboutfdr/budget.html):
FDR começou a sua campanha de 1932 à Presidência a defender as crençasortodoxas sobre a política orçamental. Ele prometeu equilibrar o orçamento federal, o que Herbert Hoover tinha sido incapaz de fazer. Na verdade, quando FDR entrou em funções, o défice nacional era quase de 3 milhares de milhões de dólares. O facto de querer um Orçamento a caminho do equilíbrio não se deviasomente à ideia daeconomia tradicional sobre o orçamento, mas foi também baseado na política. Roosevelt acreditava que um orçamento equilibrado era importante para incutir confiança nos consumidores, nas empresas e nos mercados, e que assim se incentivaria o investimento e a expansão económica. Com a economia recuperada, as receitas fiscais aumentariamfazendo com que o orçamento se equilibrasse ainda mais facilmente. Esta visão tradicional de que os défices eram uma coisa mátambém era apoiada pelas sondagens da opinião pública. Mas a ortodoxia orçamental sobre o equilíbrio do Orçamento não corresponde à realidade da situação económica de uma América com quase um quarto da sua população activa desempregada. De 1933 a 1937, FDR manteve a sua crença num orçamento equilibrado, mas reconheceu a necessidade da despesa pública para que as pessoas voltassem a poder trabalhar. Anualmente, FDR apresentava um orçamento para as despesas gerais que antecipava um orçamento equilibrado, com excepção das despesas públicas para programas de apoio social e dos programas de apoio ao emprego de emergência e, portanto, separados de despesas governamentais habituais. Tais gastos levantaram protestos pelos conservadores,defensores do equilíbrio orçamental, aos quais FDR respondeu em 1936, num discurso de campanha em Pittsburgh:
Querer equilibrar o nosso orçamento em 1933 ou 1934 ou 1935 seria um crime contra o povo americano. Para o fazer, nós deveríamos ou ter de aplicar uma tributação que teria sido confiscatória, ou deveríamos termo-noscolocado de costas e escondido a cara face ao sofrimento humano com uma indiferença que diríamos total. Quando os americanos sofreram, nós recusámo-nos a passar para o outro lado. A humanidade está em primeiro lugar. Ninguém coloca de ânimo leve um fardo sobre os rendimentos de uma nação. Mas este círculo vicioso de enorme pressão do nosso declínio nacional tem simplesmente que ser cortado. Os banqueiros e os industriais da nação gritam que as empresas privadas estão impotentes para o cortarem. Eles viraram-se, como tinham o direito de o fazer, para o governo. Nós aceitamos a responsabilidade final do governo, depois de tudo o mais ter falhado, o de gastar dinheiro quando ninguém mais tinha dinheiro para o gastar.
Coragem, honestidade, é o que se exige, foi esse o trajecto de Roosevelt, é esse trajecto que não se vislumbra nos europeístas de agora e muito menos no senhor professor. O passado de Portugal, de que o senhor como político dasduas últimas décadasé um dos seus maiores representantes, mas pela negativa, assim como o seu presente e o seu futuro merecem-no, merecem-no bem,senhor Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, um esforço intelectual como aquele que Roosevelt realizou. Em vez de vassalo do ministro alemão, aceite ser o homem que escreve os discursos para o presidente da República mas com este a querer ser o representante dos desejos profundos do povo português e não dos altos interesses dos senhores do bancoGoldman Sachs, os mercados financeiros,ou da grande indústriaalemã. Vejamos ainda Rooselvelt, em 1936, vejamos a lição que nos dá para os dias de hoje, uma lição que quase nos faz chorar face à fome que já grassa neste país, sinceramente senhor Prof. DoutorAnibal Cavaco Silva:
Alguma coisa tinha de ser feita. Uma escolha nacional tinha de ser feita. Poderíamos fazer uma de duas coisas. Algumas pessoas que estavam sentadas à minha frente junto à minha secretária de trabalho pediram-me, nessa época, para que deixasse a natureza seguir o seu curso e continuar então a política de não fazer nada. Eu rejeitei o conselho porque a natureza estava com um humor de muito zangada. Ter aceitado esse conselho teria significado continuar a expulsar as pessoas de pequenos meioseconómicos, seria permitir que continuassem a perder as casas, os seus pequenos terrenos, as suas pequenas explorações agrícolas, as suas pequenas quintas, seria continuar a que as pequenas e médias empresas continuassem a cair nas mãos de pessoas que ainda tinham capital suficiente de lado para as adquirir, as casas, as fazendas agrícolas, as pequenas empresas, mas a preços de falência. Ter aceitado esse conselho teria significado, num curto espaço de tempo, a perda de todos os recursos de uma multidão de indivíduos, de famílias e de pequenas empresas. E teríamos assistido, por todo o país, à concentração da propriedade nas mãos de um ou dois por cento da população, uma concentração inigualável em qualquer grande nação desde os tempos do Império Romano. E assim o programa desta Administração foi estabelecido com a finalidade de proteger os pequenos negócios, a pequena empresa, o pequeno estabelecimento comercial, os indivíduo de parcos rendimentos, a protegê-los da vaga de deflação que os ameaçava. Percebemos, então, como fazemos agora, que o vasto exército dos homens de pequenos negócios e os donos de pequenas fábricas e de lojas, juntamente com os nossos agricultores e os nossos trabalhadores formam a espinha dorsal da vida industrial da América. No nosso plano de longo prazo, reconhecemos também que a prosperidade da América dependia, e continuaria a depender, da prosperidade de todos. Rejeitei o conselho que me foi dado para não fazer nada por uma razão adicional. Eu tinha prometido, e minha administração nisso estava determinada, a proteger o povo dos Estados Unidos da fome. Recusei-me a deixar a satisfação das necessidades humanas unicamente nas mãos de comunidades locais, comunidades locais essas que estavam quase todas elas também falidas. Ter aceitado esse conselho teria consistido em estar a criar apenas obras de apoio social para oferecer ao povo americano os alimentos de que precisaria sabendo desta vez, no entanto, que em muitos lugares essas obras de apoio social (breadlines) iriam durar muito mais tempo do que a necessidade do pão. Naqueles dias sombrios, entre nós e um orçamento equilibrado ficavam milhões de americanos necessitados a quem era negada a promessa de uma vida decente na América.
(Continua)
