TEMPO PARA UM NOVO NEW DEAL, por MARSHALL AUERBACK

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

PARTE VI
(CONTINUAÇÃO)

Tudo, até mesmo a recaída de 1938 valida a eficácia da intervenção activa  da política orçamental. Durante a primeira Administração de Roosevelt muitas coisas foram tentadas – e os défices  públicos   continuaram  a “explodir” até que  atingiu cerca de  5,5% do PIB com  o emprego (e os lucros) a melhorarem significativamente durante mais de três anos e meio — mas as taxas de desemprego ainda eram muito altas.

Contudo, em 1936 muitos economistas e especialistas financeiros temiam que o país caminhasse para a falência  se o governo mantivesse  o rumo de elevar o  défice pelo aumento da despesa. E afinal, argumentou-se, os défices do governo tinham tido uma acção catalisadora sobre a economia. O setor privado poderia agora andar pelo seu próprio caminho e voltar a situar-se  ao  nível de pleno emprego  de 1928  e  início de  1929.

Consequentemente, a administração de Roosevelt funcionou (em 1936), sobre  uma plataforma em que ele tentou reduzir significativamente, se não eliminar completamente, o défice no Orçamento do ano fiscal de  1937 — tendo enviado ao Congresso um orçamento em que se propunha atingir essa meta. Roosevelt ganhou com uma grande margem – compreensivelmente, até porque agora estava fora da situação de depressão, e estamos em 1937. Ele só voltou a mudar de posição a favor do forte activismo orçamental quando o seu intervencionismo  orçamental dos últimos  4 anos foi completamente invertido apenas no curto espaço  9 meses, com base no orçamento equilibrado e numa absurda política monetária apertada provocada pelo Fed  quando as pressões deflacionistas  e uma moderada inflação começou a aparecer em meados do mesmo ano. FDR tinha cedido aos conservadores no Congresso (e ao seu secretário do Tesouro) e apresentou um orçamento equilibrado, cortando nos  estímulos orçamentais afetando a matriz da despesa. O Fed também começou a pressionar, nesta fase, quando a inflação tinha aumentado para 4%.

O resultado cingiu-se a uma contração da economia em 6% caindo para USD 86,1 mil milhões em 1938, tendo-se naturalmente atenuado a recuperação. Posteriormente, Roosevelt corrigiu o seu erro quanto ao orçamento conservador e retomou novamente a sua faceta de ativista orçamental em 1939 (período em que se constatou uma subida do défice orçamental para 3,1% do PIB), o PIB subiu novamente para USD 89,1 mil milhões. Em 1940 registou-se uma subida ainda mais significativa de USD 85 mil milhões para USD 96.8 mil milhões, que é quase o valor alcançado no início da grande depressão. Por volta do mesmo ano, o Congresso e FDR perderam qualquer inibição e o PIB cresceu fortemente através de grandes volumes na despesa pública. Já em 1943, os EUA registava um défice  orçamental  equivalente a 30,3% do PIB, ao passo que em 1944, o PIB foi de USD 210,9 mil milhões, mais do dobro do valor atingido quando a grande depressão eclodiu em 1929.

Tabela I.

Auerback - XV

Nunca antes se tinha visto nada assim, nem de longe nem de perto, que se assemelhasse à grave crise (Grande depressão), que ocorreu antes da Administração de Roosevelt.

Imagem desses tempos, tempos que agora estão a chegar à Europa e nos destroem as entranhas:

Auerback - XVILegenda. 1935. Depression:Unemployed: photo of Idle man dressed in worn coat lying down on pier:New York City docks: photo by Lewis W, Hine

Não, não se viu até agora. E a crise de hoje, não é nenhuma novidade, não nos espanta, portanto, e acontece numa altura em que muito do quadro legislativo posto em prática por Roosevelt tem sido largamente desventrado. Os estabilizadores de longo prazo da época acompanhados pelos mecanismos criados por FDR, na verdade, funcionaram muito bem, mas foram também eles praticamente destruídos durante um período de uma predação sem precedentes pelas grandes empresas, predação esta que atingiu o seu ponto mais alto com o  recente boom de crédito e do crescimento do chamado  “sistema bancário sombra.” Antes deste fundamentalismo de mercado se enraizar durante a era Reagan, o sector financeiro representava apenas cerca de 2% dos lucros das empresas americanas.  Nos últimos anos, este valor levantou voo para perto de 40%.

Indiscutivelmente foi sob a Presidência de Roosevelt que se terminou com uma dívida pública para cima de 100% do PIB no final da guerra – tendo o governo ultrapassado o que recebeu em impostos durante os anos de guerra em  200 mil milhões de dólares. Todavia, o povo americano “poupou” mais de 200 mil milhões de dólares “durante o mesmo período – uma vez que a dívida pública correspondia a riqueza financeira privada e o resultado final foi a de prosperidade de pleno emprego. Frise-se uma questão pertinente, que os falcões do défice de hoje devem ter bem em mente e  sobre a qual se deveriam interrogar: se os défices são tão ruinosos economicamente, então por que criá-los durante a guerra, quando na teoria o funcionamento ideal da economia é mais importante?

(continua)

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Para ler a Parte V deste trabalho de Marshall Auerback, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/08/tempo-para-um-novo-new-deal-por-marshall-auerback-5/

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