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O PATO ALGEMADO – XLI – por Sérgio Madeira

Imagem2Marília estava entusiasmada com todo aquele movimento. Fora encarregada pelo inspector Pais de ir recebendo os convidados.

O café do senhor Lopes, na avenida Duque de Loulé, a dois passos da sede da Polícia Judiciária, fora escolhido para palco da reunião.  Filipe Marlove, o inspector, o Professor e, claro, o Pato, estavam reunidos desde manhã no gabinete da gerência. Os convocados, foram chegando e Marília indicava-lhes o lugar. Laura e Pedro Janelas foram os primeiros – com Janelas a soltar gargalhadas agudas. Depois chegou Paralelo de Sousa. Marília perguntou:

– O mano não vem?

– O mano?

– Sim, o pastor Franz Boagren?

– Menina, se nós nunca aparecemos juntos, por que razão teríamos de ser dois?

– Pois, lá isso é verdade…  – E foi receber a mecânica Celeste que vinha com Aristóteles, o pastor alemão.

O comendador Emanuel de Sousa Figueira e Maria Teresa Corselle (a sapateira maravilhosa), chegaram juntos discutindo harmoniosamente como um casal padrão. Um rapaz magro, ao entrar, entortou os olhos em intenção de Marília – era Cabinda, o maluquinho do Largo de São Cristóvão. Parecia não faltar ninguém, mas ainda chegou Esteves, o escrivão da PJ. Marília foi chamar os elementos da «mesa».

No meio de um sussurro de curiosidade, os notáveis atravessaram a sala e dirigiram-se ao topo onde, junto ao balcão, quatro mesas unificadas por uma toalha, assinalaavam o altar do poder. Vindo da avenida, chegou um ruído crescente de vozes ritmadas. O inspector, Filpe Marlove, o Oliveira do Hospital, o Professor e o Pato, ocuparam os seus lugares. Por detrás, em pé, Marília e Esteves, davam à cena aquele tom sóbrio que os grandes acontecimentos costumam assumir – uma espécie de pingo de lacre num documento – não serve para nada, mas é bonito. O volume sonoro do vozear aumentava. O inspector resmungou:

– O que é isto? – O Esteves respondeu em voz baixa:

– É uma manif.

– Uma manif? Só faltava mais esta. – e acrescentou – D. Marília, faça favor de abrir a sessão!

Marília, com a borbulhagem vermelha de excitãção, mas com uma voz surpreendentemente forte e bem timbrada, bateu com uma colher num copo e anunciou:

– Minhas senhoras, meus senhores, o senhor inspector Pais tem uma declaração importante e definitiva a fazer.- O inspector, nervoso, ergueu-se, tossiu e começou: – Já Pralim Sexto da Brabilónia dizia que nada do que parece ser é.. – As vozes estrodeavam quase à porta do café do senhor Lopes. A palavra de ordem repetida incessantemente era – «Independência, já! prá República de Massamá!». O Pais ergueu a voz, tentando fazer-se ouvir – Um sábio austrliano, qualquer coisa Lourenço, descobriu o imprintingue que é uma espécie de… Dass! Mas o que é esta merda? – Referia-se ao facto de o Oliveira se ter posto de pé e ter começado a gritar também a palavra de ordem que vinha do exterior. O Pato fez ouvir um grasnido:

– Vamos interromper a nossa sessão e ouvir o que aqueles senhores querem. -O escrivão Esteves murmurou-lhe algo ao ouvido – Bem, atingimos o número de linhas estipulado e, portanto, acabamos para a semana.

O Pais gritou:

– Ó Lopes, então os meus pastéis de bacalhau?

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