O estranho caso do pastor alemão – um interrogatório apertado
Marília lançara a bomba:
– Se em 1952, o senhor tinha cinco anos, agora deverá ter 65… Aqui no folheto, diz que o senhor tem 55… Após ter feito as contas com a ajuda dos dedos, o Pais resmungou:
– Lógico! – e voltando-se para Paralelo de Sousa – A verdade é como o Pralim VI da Brabilónia, está por debaixo da primeira camada do emprintingue. – e fazendo um gesto para suspender o diálogo enquaanto mastigava rapidamente o pastel de bacalhau, declarou:
– Isto vai continuar, mas é na judite!
– Não posso, tenho compromissos… – disse Paralelo de Sousa.
– Ai não pode? Tem compromissos? Pois vai ter de poder – o Pais estava a ficar colérico – Ou vem de sua vontade ou vem debaixo de prisão. Tem muita coisa a explicar.
.- Mas posso explicar aqui…
– Não. É lá que vai explicar tudo e perante um escrivão. Estes dois servem de testemunhas – voltou-se para Filipe e Marília – De acordo?
– De acordo!
Vieram em silêncio até ao Conde Redondo. Em silêncio é como quem diz – os roncos do inspector só pararam junto ao gradeamento do edifício da polícia. O Pais, estremnunhado, recuperou o seu ar carrancudo e berrou para o agente do piquete que espreitava para o banco de trás ocupado pelo inspector e por Paralelo de Sousa.
– Há algum problema, han?
– Nenhum, senhor inspector, tudo bem… – respondeu o subalterno com voz sumida.
Marília ia a arrancar para o parque de estacionamento, mas o inspector deteve-a e gritou para o agente que regressava ao seu cubículo:
– Venha cá!
– Sim, senhor inspector.
– Então você acha que está tudo bem? –
– È uma maneira de dizer, senhor inspector.
– É uma maneira estúpida de dizer.
– Sim, senhor inspector.
– Tudo bem é só nas telenovelas!
– …
– Aqui está tudo mal, percebeu!
O rapaz ficou em silêncio. – O Pais deu um berro:
– Ó seu chóriço, então não se pede as identificações?
– Pensei que fosse pessoal da casa.
– Quer dizer que você pensa… Vá lá. – deteve o gesto de Marília que procurava os documentos na sua malinha de mão. – Aqui o doutor é que tem de cumprir as formalidades.
João Paralelo de Sousa fez um ar alarmado:
– Vou ficar preso?
– É o mais certo.
– Porquê?
– Ò homem você ainda pergunta? Um gajo que chega a Portugal dez anos antes de nascer e que aparece aqui e na Alemanha, como Senhora de Fátima, um pintas que ensina a falar com Deus Nosso Senhor em vinte lições… Cinquenta tive eu para tirar a carta de condução…
– Isso é do meu irmão… – O inspector não ouviu ou fingiu não ouvir:
– Um homem que é conhecido em Sobral de Monte Agraço como o pastor alemão…
– Posso explicar.
– Ah pois pode., Espero bem que explique. – E fez sinal a Marília que seguisse para o interior do parque de estacionamento.
A seguir – o interrogatório.

