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HERÓIS DE TRAZER POR CASA*. POR ANDRÉ BRUN

(1881 – 1926)

1881 - 1926
1881 – 1926

I

A guerra de trincheira não fornece aquele tipo de heróis que os paisanos de cinquenta anos pra cima e as mulheres de dezoito anos para baixo esperavam, naquela figura de gravura ou de oleografia atirando-se com uma espada na mão e um dito histórico na boca para o meio da batalha e para o seio da História.

Como se poderá ser herói segundo esse figurino nesta guerra em que todos andamos entalados entre traveses e pára-costas, com mil cuidados para que o inimigo não nos veja, e nunca conseguindo vê-lo, senão por acaso? Quando há modo de chegar à fala ou é nas patrulhas em que se rasteja e em que o grande golpe é saltar em plena escuridão à goela de um Fritz que não espera tal surpresa e se não acautelou suficientemente; ou é no raid que se repele quase sempre em plena baralha e absoluta confusão sem se saber se o boche é um ou é cinquenta, se ataca em força pela direita, ou se, pelo contrário, o grande perigo está na esquerda; ou é ainda na incursão à trincheira inimiga, a qual, anunciada como foi pelo nosso bombardeamento prévio, resulta quase sempre encontrarem-se apenas uns pobre diabos que não puderam acolher-se às suas segundas linhas.

O herói das trincheiras é um herói obscuro porque trabalha na escuridão, e de dia não é tão tolo que se meta no beco duma aventura sem saída. Mas porque a sua heroicidade não tem espectáculo, nem por isso ela é menor, e ninguém a poderá entender tão bem como nós que vivemos dentro dela e a praticamos todos em dose maior ou menor.

O que há de principalmente heróico na trincha é viver nela. Na outra guerra, na guerra de movimento, por muito bem informado que o inimigo esteja, nunca pode fixar o alvo da sua acção como aqui, em que serenamente com um mapa, um transferidor e uma régua graduada se escolhe com a máxima facilidade um ponto onde há sempre noventa e cinco probabilidades de se atingir alguém. Somos, até certo ponto, principalmente nesta terra de Flandres, onde não há meio de organizar abrigo de uma sofrível resistência, uns tristes bonecos de pim-pam-pum de feira entre os quais o freguês folgazão pode escolher tranquilamente aquele que quer deitar abaixo.

Tenho defronte do meu nariz um mapa em que estão marcados todos os pontos interessantes da trincheira boche. Sei onde ficam os comandos de batalhão e de companhia, os postos de sinais, os depósitos, as cozinhas, tudo enfim. Quem me impede de comunicar à artilharia uma simples referência composta de duas letras e três algarismos e fazer saltar o Herr major que comanda ali defronte? Ninguém. É um entretenimento que está ao alcance do meu capricho. Quem me garante, entretanto, que a esta hora o citado Herr, que tem sobre a sua banca um mapa tão completo como o meu, não está pedindo às suas baterias que façam o possível para me enviarem ou para o hospital ou para um mundo melhor do que este, ao que se diz? Felizmente, como, sem nos conhecermos, temos um pelo outro uma certa consideração pessoal, contentamos-nos em mandar bombardear, quando é indispensável, cruzamentos de trincheira, linhas de suporte e outros pontos por onde Fritz e Folgadinho passeiam sem saberem o perigo que os ameaça.

Porque nada nos garante que não sejamos atingidos de um segundo para o outro, porque durante seis longos dias e seis intermináveis noites temos de nos manter dentro desta prisão de lama, heróis somos nós todos e bastante. O que nos tira o mérito é que acabamos por não calcular que o somos e por viver pacatamente sem a menor ideia de que podemos morrer por violência. É uma heroicidade perpétua, obrigatória, profissional. Somos uns heróis de trazer por casa.

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
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