AS CIDADES MORTAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

II

Certa vez, num acréscimo de ódio e de furos, o boche decide acabar com aquilo. Sobre Armentières caem aos milhares as granadas de gás, durante tardes inteiras circulam camions cheios de feridos, queimados e cegos. Sobre Béthune desencadeiam-se miríades de granadas incendiárias, e a grande cidade histórica das guerras da Flandres é durante quase oito noites um formidável braseiro que ilumina a muitos quilómetros em redor.

Os que quiseram fazer essa peregrinação e tornar a ver essa pobres pedras mártires, esverdeadas pelos gases tóxicos ou enegrecidas pelas labaredas, sentiram de súbito uma vontade horrível de gritar. O mais alto talento não descreve aqueles horrores. É um corpo definitivamente morto que pisamos, um corpo retorcido pelo sofrimento, em que certas esquinas ainda de pé parecem mãos enclavinhadas erguendo-se para o céu a pedir socorro. Brechas grandes, aqui e acolá, abertas no alinhamento das ruas pelos desmoronamentos ou pela explosão de uma bomba aérea, parecem largas feridas, e a impressão sentida é a mesma que nos aperta a goela em face dos restos calcinados de certos desgraçados que morrem na trincheira feitos pedaços por um morteiro. As cinzas são como o sangue coagulado e escurecido pelo ar; os interiores hiantes das casas abatidas são como ventres rasgados dum só golpe. Nada palpita naqueles cadáveres. Já não são senão a derradeira miséria, o absoluto aniquilamento.

E, como se recorda a vida de um amigo, cujo caixão estamos velando, o nosso espírito fantasia a existência daquelas cidades dentro dos séculos e do tempo, crescendo e medrando, modificando-se aos poucos e conservando sempre como relíquias os seus mais antigos monumentos, à sombra dos quais as casas novas se erguiam e se juntavam tais as crianças que aos velhos se chegam para lhes ouvir as histórias.

Armentières, Béthune! Pouparam-vos os sucessivos inimigos que, através da História, por vezes se instalaram dentro dos vossos muros. A distância vos foi matando aos poucos, até descarregar o golpe decisivo, o mais brutal, o menos piedoso de quantos soldados passearam sobre a terra a sua ânsia de conquistas. Debalde as vossas catedrais cresceram mais ainda para estender sobre vós a inútil protecção das suas torres sagradas. Foram o primeiro alvo da destruição, eram o ponto de referência que guiava a fúria de devastação. Foram as últimas a cair também. Eram fortes porque eram belas; mas que força há que resista, que beleza há que se oponha a este furacão que ninguém tinha podido sonhar?

E agora, tais como estão, têm o ar dos soldados que morreram fazendo o seu dever e guardam, na expressão serena da sua face, o orgulhoso sentimento do seu sacrifício. A cruz que ainda resta sobre uma arcaria dumas delas parece a Cruz de Guerra posta piedosamente sobre o peito dum herói sem vida.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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