HERÓIS DE TRAZER POR CASA*, POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

II

Há, porém, distinções a fazer. Entre os que vão às patrulhas, há os que se oferecem para lá ir, os que excedem os objectivos, não se prendendo nos nossos arames e indo até aos de Fritz. Há os que, sabendo que se não recebe a Cruz de Guerra senão em troca de um boche vivo, andam nas profundas da terra de ninguém com a obsessão de pilhar pelo fundo dos calções um saxónio mais pacóvio, ou de meter a baioneta aos peitos de um bávaro mais violento.
Nas horas de bombardeamento, quando se sabe que por detrás da barragem estão boches prontos a saltar-nos em casa, há os que sentem de repente a necessidade de ir prevenir o comandante de companhia ou a conveniência urgente de transportar um ferido ao posto de socorros, mas há também os que ficam agarrados à linha, fazendo crepitar as espingardas automáticas ou apertando convulsivamente nas mãos as granadas com que se enxotam os importunos.
Certa noite ― Augusto Casimiro, um dos meus tenentes, já vos contou esta aventura ― faltou um soldado duma patrulha que o poeta da Hora de Nun’Álvares empreendera na esperança de colher um posto de escuta inimigo. Na manhã seguinte, quando combinávamos outra patrulha para explorar de novo a terra de ninguém à cata do perdido, que possivelmente lá podia estar ferido ou cadáver, um soldado vai à porta da caverna-mess onde conversávamos e disse apenas:
― O soldado que falta está morto dentro de uma cratera ao pé do arame boche.
E, como surpresos lhe perguntássemos donde lhe vinha essa informação, ele muito simplesmente, mostrando a espingarda e o capacete do seu camarada, disse-nos:
― É que fui lá ver.
Fora em plena manhã, à luz clara do sol, rastejando, nas barbas dos vigias e dos snipers alemães, até encontrar o corpo do seu amigo. E voltou lá, de dia ainda, a buscá-lo com dois maqueiros, acenando, é certo, com a cruz vermelha dos braçais, mas sem a menor garantia de que Fritz não aproveitasse o ensejo para o varrer com uma metralhadora.
Não poderei esquecer tão pouco a frase altamente pitoresca duma estafeta regressando da primeira linha sob um violentíssimo bombardeamento e a quem nervosamente se perguntava:
― Então? Que há?
Com o seu sorriso mais tranquilo, no estrondear formidável dos morteiros e granadas caindo às dúzias, falando o seu rude falar de soldado, ele explicava:
― Tudo fixe! Não há empeno. Aquilo lá em baixo é um lascar de fogo que é mesmo um louvar a Deus!

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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