Formulação de pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota
PARTE III
(CONCLUSÃO)
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França, morna planície
A palavra de ordem foi lançada. Para os porta-vozes da nomenklatura liberal, a França é a bomba-relógio da crise europeia. Assim, aqueles que viram nos Estados Unidos, “o regulador da economia mundial” e que proclamaram sucessivamente o modelo de desenvolvimento inglês, espanhol ou irlandês, viam sempre na França o homem doente da Europa que cometeu o erro de não ter adoptado os remédios consagrados pelo neoliberalismo, ou seja, de não ter feito a dopagem da procura pelo crédito hipotecário, o financiamento das pensões pelos fundos de Pensões e de não ter levado a cabo a desregulação completa do mercado interno de bens e serviços.
Não me irei deter no facto de que as nossas elites políticas convertidas ao neoliberalismo se mostram incapazes de separar o trigo do joio na despesa pública ou de fazer o diagnóstico necessário da nossa desvantagem em termos de competitividade. Mas sim sobre os sacrifícios que o nosso país tem feito em nome do seu compromisso para com a Europa e depois para com o euro: ligação à paridade monetária alemã desde 1983, desembolsos importantes no financiamento para os fundos de coesão estrutural, novos compromissos financeiros a fundo perdido sob o Mecanismo Europeu de Estabilidade. A França é o melhor aluno em termos da ideologia europeia, ligada à sobrevivência da moeda única e da construção europeia, enquanto que a Alemanha e o Reino Unido defendem os seus interesses nacionais, cada um deles à sua maneira.
No entanto, ei-la aqui encostada á parede. A recessão está aqui. Nós já entrámos no oitavo trimestre consecutivo de crescimento ao nível do desemprego. O consumo francês, que sustentou o resto da Europa durante a crise, está em queda. A construção entra em contracção de uma forma tal que alarma as profissões dos imobiliários. Mais grave, talvez, depois de uma subida em 2011 (aumento de 10% do montante das despesas em bens de capital nas empresas), o investimento produtivo cai para o nível mais baixo desde a guerra: menos de 9% do PIB. Esta queda acompanhou a queda dos lucros abaixo de 7% do PIB. Podem-se pois retomar as palavras consagradas pela linguagem médica: a situação do paciente é “preocupante”.
É necessário rejeitar em toda a força a ilusão alemã. Sem a rede de empresas de Mittelstand, sem o ponto de apoio do trabalho a baixo preço da Mitteleuropa e sem a implantação da força de vendas das suas empresas nos cinco continentes, a imitação da Alemanha viraria pura e simplesmente ao ridículo. A França está pois numa situação de urgência.
A nossa margem de manobra está situada aqui onde nós não a queremos procurar: na saída do euro e na capacidade de criar a moeda para o investimento público e para o investimento privado, igualmente. Estes dois temas, proibidos no debate público e bloqueado pelos media e pelos bancos, deveriam constituir as obsessões diárias de homens e mulheres do Estado francês, se é que estes e estas ainda existem.
A saída do euro visaria assim alcançar um duplo objectivo: restabelecer a competitividade francesa sem totalmente deprimir o nosso consumo. Toda e qualquer desvalorização tende a reduzir o preço internacional do trabalho no país em causa. Desvaloriza-se a moeda para depreciar o trabalho. Isso é o que não querem os membros da nomenklatura, sempre ligados à esperança de uma queda drástica dos salários que teria no entanto como efeito a redução no consumo e, também, na sua esteira, teria como segundo efeito reduzir o investimento, como se pode observar na Grécia, em Portugal ou na Espanha. Optando pelo seu contrário, pela opção sacrílega da saída do euro, nós poderíamos abrir o horizonte para as nossas empresas.
A inevitável inflação resultante da desvalorização e que a esta se seguiria não constitui o maior risco de danos colaterais. Seria necessário esperar por 4 a 5 pontos adicionais na taxa de inflação sobre um arco de tempo de pelo menos dois anos, com uma depreciação de 20%, num contexto europeu de crescente deflação (nunca a evolução dos preços foi tão baixa desde há trinta anos). Estes danos colaterais expressar-se-iam na perda de crédito eventual da França, do seu Estado e, correlativamente, de muitas empresas, espontaneamente ou sob a pressão dos credores e dos traders da City e de Nova York. O nosso interlocutor e o nosso adversário também é o banco Goldman Sachs.
Ora, nós vivemos o trigésimo aniversário da grande bifurcação que levou a França a alinhar-se segundo as normas da nova organização neoliberal. Esta realidade é ilustrada pela política de rigor decidida, em Março de 1983. Insistimos, no entanto, em sublinhar uma outra escolha, concomitante, que consistiu em confiar a subscrição de obrigações do Estado a um painel de bancos seleccionados, os “Primary dealers” ou “especialistas em títulos do Tesouro”. Desde então, não são pois os aforradores (igualmente os contribuintes e cidadãos) que subscrevem os empréstimos públicos, incluindo os dos Estados cujo crédito permanece intacto. O assalto dos bancos sobre a dívida pública, que viola a liberdade concorrencial tem estado a ser protegido por Bruxelas e por Frankfurt.
Portanto, a saída do euro tem que ser acompanhada de uma outra grande e fundamental decisão, a da emissão para o público de aforradores dos títulos dos empréstimos públicos, a muito longo prazo, com uma taxa de juro e com uma indexação em devida forma e um regime fiscal favorável. Apelemos ao aforrador francês. Se os porta-vozes dos bancos se espalham para nos desviar desta “tentação”, é porque a tentação é boa, é porque ela lhes iria retirar a capacidade de poderem estrangular os Estados mais rebeldes às suas exigências. Assim, os empréstimos emitidos poderiam cobrir entre cinquenta e sessenta mil milhões de euros das necessidades públicas francesas.
Para o restante, optemos pela monetarização das despesas públicas prioritárias. Ao contrário daqueles que defendem uma monetização da dívida pública existente para apagar a herança do passado, esta monetização faria aparecer o Estado sob as características de um investidor de longo prazo, envolvido em acções necessárias: construção de linhas de alta velocidade necessárias, as despesas com armamento de forte efeito de retorno do investimento, securização do parque de energia nuclear, apoio ao desenvolvimento da fileira das energias renováveis, investimento nas universidades científicas e médicas, investigação científica pública e privada em programas portadores no futuro. A referida acção sobre a despesa pública seria de impacto imediato sobre a actividade privada e sobre o investimento por parte das empresas dos sectores envolvidos. A um nível de 50 a 60 mil milhões de euros, esta política faria aparecer um crescimento significativo da produção e do emprego no prazo de três a quatro trimestres no máximo.
Deixemos, pois, de estar à espera de Grouchy – a aceleração da procura global – enquanto que Blücher– o diktat alemão já está ali, à nossa frente. É necessário trabalhar de forma decisiva para evitar uma Waterloo económica. Mas onde está a figura pública francesa susceptível de correr o risco do “herói sacrilégio ‘? Porque, no fundo, se todos nós mostramos tanto conformismo, isso não é devido por falta de incarnação do que é novo? Comecemos então imediatamente à procura do herói sacrílego.
