SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE JEAN LUC GRÉAU – I

Formulação de pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é,   uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto,  caracterizado pela ignorância, ganância e maldade,  destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal

aqui vos apresentamos a resposta de Jean-Luc Gréau sob a forma de artigo, Fora do euro, está a saída da crise, que consideramos de leitura obrigatória.

Jean-Luc Gréau é diplomado em economia. Durante 34 anos prosseguiu uma carreira de quadro nas organizações interprofissionais representativas. Entrou para a CNPF (Confederação Nacional do Patronato Francês) em 1969 e deixou o MEDEF em 2003. Desde então tem consagrado a sua carreira à actividade de ensaísta e de cronista em matérias de economia.

Aos estudantes de Economia Internacional que não se queiram submeter aos dogmas e à visão do mundo fornecida pelo modelo neoclássico no que se refere às relações económicas internacionais, sugiro a leitura da sua obra La trahison des économistes, Paris, Galimard, 2008. Para uma análise da crise veja-se a sua obra La Grande Récession, Fólio actuel, Gallimard, Paris, 2012.

Para a publicação do presente artigo contámos igualmente com o apoio da revista Le Causeur e na pessoa do seu director, Gil Mihaely. A ambos apresentamos os nossos agradecimentos pela franca disponibilidade quanto à publicação em português do presente artigo.

Fora do euro, está a saída da crise

 Jean Luc Gréau

 Parte I

O presidente normal, o seu ministro das Finanças e o seu ministro do Trabalho não se cansam de estar à espera de que venha a retoma económica. Graças às empresas, que são a riqueza do país – uma homenagem à doutrina da oferta – e graças à procura americana ou chinesa – uma homenagem à globalização feliz – a retoma acabará por socorrer uma França que desde a guerra nunca esteve tão angustiada como agora. Mas a sua serenidade não convence ninguém, nem a opinião política nem os políticos socialistas que esperam uma Berezina política nas próximas eleições. À força de serem as datas mudadas, o início 2013, o final de 2013 ou o início de 2014, a retoma económica assume a figura de zombie.

Não os macemos mais. Todos os organismos de análise e de previsão oficiais, FMI, OCDE, Comissão Europeia, Banco Central Europeu que estão bem dotados em ferramentas de análise, pelo menos na aparência, sentiram-se obrigados a renunciar a fazerem prognósticos sobre o retorno do crescimento na Europa. A questão é, sobretudo, isso sim, porque é que tantos presságios que lhe foram dedicados têm sido incapazes de compreender a situação económica da França e da zona euro, depois de já terem sido tão brilhantes na sua cegueira aquando da ocorrência da crise dos Estados Unidos e, depois, na crise do euro.

Não se pode prognosticar de modo sério se não se fizer à partida nenhum enquadramento sobre os dados essenciais que definem a declaração do problema económico francês e europeu. Em vez de se projectar em direcção a um futuro melhor, deve referir-se ao legado da década passada.

Em primeiro lugar, sofremos de feridas que têm permanecido abertas desde a recessão de 2008 e 2009. O choque económico minou as bases económicas e financeiras dos países ocidentais. 14 milhões de postos de trabalho foram destruídos nessa altura no Ocidente (600 mil em França) de que apenas uma parte pode ser reconstituída em países como os Estados Unidos e especialmente como a Alemanha. Os défices públicos que se foram aumentando não foram depois, em nenhum país, contrabalançados por excedentes correspondentes, excepto na Alemanha precisamente, país que hoje equilibra as suas contas internas apoiando-se sobre um excedente externo sem precedentes, situação esta não generalizável uma vez os excedentes de uns são necessariamente os défices dos outros. No entanto, as dívidas públicas ultrapassaram em quase toda a parte um limite crítico, inclusive nos Estados Unidos país que têm reagido á crise de uma forma bem melhor que a Europa.

Em segundo lugar, vivemos uma segunda experiência de União Monetária, a do dinheiro caro. Após a primeira, situada entre 1999 e 2008, que permitiu aos mutuários da zona euro endividarem-se ao menor custo, a segunda é a da perda de crédito dos mutuários privados e públicos do Sul da Europa. O facto é parcialmente obscurecido pelas injecções de moeda fresca pelo banco em Frankfurt, que têm sido disponibilizadas para os bancos a Sul e são substituídas  sobre os empréstimos dos seus respectivos Estados, com uma total indiferença sobre a solvabilidade cada vez mais duvidosa dos devedores em causa. Mas o fenómeno permanece limitado à dívida dos Estados: as empresas italianas ou espanholas vêem serem-lhes impostas taxas altas ou mesmo exorbitantes para os seus novos empréstimos.

Em terceiro lugar, o crescimento dos países emergentes, entre 2009 e 2012, que amorteceu o choque no Ocidente, está inexoravelmente a perder o seu vigor. A China, Brasil, Índia e muitos outras novas potências estão a ficar numa situação de baixa de ritmo, mais ou menos pronunciada, mas constante, semestre após semestre. O apoio esperado não virá portanto destes países emergentes e, especialmente, não virá da China que produz cada vez mais para o mercado interno o que ela anteriormente importava do exterior. Ao contrário, é o risco de uma crise com origem na China e na Ásia, de um modo mais em geral, que começa agora a aparecer, por meio de bolhas de crédito que se aprofundam na costa oriental do Pacífico. Em qualquer caso, o dinamismo do mundo não – ocidental é sufocante.

Vamo-nos concentrar sobre a declaração do euro e a França.

(continua)

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