EM MEMÓRIA DE GUILHERME DE MELO (1931-2013) – 2 – por Álvaro José Ferreira
13 anos ago
DUALIDADE
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Metade do meu corpo é Marco António,
outra metade – mistério! – é Cleópatra.
Eu sou, ao mesmo tempo, o torvo Otelo
e Desdémona que a tremer se entrega
na fronteira da noite que amanhece.
Dentro de mim há sempre o que domina,
ao lado da metade que se oferece.
GIRASSOL
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Havia a imensidão que há nas paisagens lunares.
Havia o longo silêncio que escorre dos glaciares.
Havia a desolação que há sobre a terra queimada.
Havia o tenso mistério de uma freira emparedada.
Havia a aspereza salgada que há num longínquo recife.
Havia o cinzento frio que tem o céu em Cardiff.
Havia o pávido assombro duma descida ao inferno.
Havia a tristeza imensa de Veneza no inverno.
Havia um grito sem voz suspenso no ar parado.
Havia a face terrosa dum cigano esfaqueado.
Havia a nudez marmórea duma Acrópole derruída.
Havia o baço fulgor duma pupila sem vida.
Havia o que tendo havido nunca mais voltara a haver.
Havia a premonição das coisas por acontecer.
E foi então que vieste, assim num esplendor, num clarão,
como um girassol de fogo que irrompe, rasgando o chão.
DORIAN GRAY
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Sou eu,
inteiro, eu mesmo
– ou o retrato?
As rugas que não tenho e ele contém,
a ironia amarga nos meus lábios
feita cansaço fundo em sua boca,
o engelhado dos meus dedos lisos,
fio por fio nas suas mãos traçado,
tudo afinal sou eu nele retratado.
E olho no retrato do que sonhei.
E vejo nele o mundo que vivi.
O muito que odiei.
Os corpos que abracei, tive e perdi.
Olho o desejo, a raiva e o prazer,
a lama, o céu, o nada,
a volúpia a que, rindo, me entreguei.
Olho-me olhando o tudo que assim fiz,
tudo o que fui e quis,
lucidamente frio nesse meu querer.
Remorsos? E de quê? De ter vivido?
Remorsos? Para quê – se o proibido
é afinal estar vivo e não viver.
LISBOA
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Quando vim de África
faltava-me a lonjura,
o som e o silêncio, o espaço.
Quando vim de África
faltava-me a distância
onde o olhar se perde
e vai e vem e volta
e passeia sem peias,
receio ou embaraço.
Tudo é diferente
na Lisboa que adoptei e me adoptou.
Diferente o céu, o cheiro, a cor do mar,
diferente o chão que piso, a chuva, a gente.
Não há nas suas ruas
o clarão das acácias a florir.
Só pouco a pouco, lento, devagar,
a fui de manso
aprendendo a amar.
Hoje sinto que a Lisboa que adoptei e me adoptou
tem mais a ver com Cesário do que Eça.
Nela mergulho o rosto
como quem esconde a face que o sol esquenta
entre os seios doces, maternais,
da ama que a sorrir nos acalenta.
A RAIZ DA PELE
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Guardo na raiz da pele
os gritos, as emoções,
os desesperos, os medos,
a raiva, o ódio, a perfídia,
os sonhos, as frustrações,
as cicatrizes das feridas
que a vida em mim foi abrindo,
os mistérios, os segredos.
Guardo na raiz da pele
a verdade do que sou.
Deixo que à flor da pele
emerja a máscara, o sorriso,
o jogo do gato-e-rato
onde, estando, nunca estou.
O QUARTO FECHADO
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Pintei de verde o teu barco,
pus-lhe um mastro e uma vela.
Soltei-o por sobre as águas,
fiquei a vê-lo na margem.
Desenhei nuvens, bonecos,
nas paredes do teu quarto.
Enchi de sol a janela,
fiquei olhando, entre a porta.
Cobri de relva os canteiros
que tracei em frente à casa.
Trouxe-te um cachorro branco,
fiquei sentado a afagá-lo.
Peguei num livro de histórias
quando a tarde foi caindo.
Debruçado para o teu berço
fiquei a lê-lo calado.
Nada faltou ou esqueci,
em tudo pensei e trouxe:
brinquedos, livros, canções,
o riso que alegre riste;
apenas faltaste tu,
o filho que não existe.
VELHICE
Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011)
Velhice, agora os dias são imensos,
são longos e vazios.
Agora os dias são pesados, arrastam-se, são frios.
Quieto, em meu lugar.
Passeio por entre as cruzes
dos mortos que guardo em mim.
Falo com eles em silêncio.
Esquecido, à espera do fim.
Outubro de 2008
* Guitarra portuguesa – Luísa Amaro
Percussão – Marta Ribeiro
Gravado nos Estúdios Gravisom, Lisboa
Captação áudio – Gino Vitali
Capa do livro “A Raiz da Pele”, de Guilherme de Melo (Humanity’s Friends Books, 2011) 8% do preço de capa reverte para a Associação Sol (http://www.sol-criancas.pt/ )