Nota prévia:
Para ouvir os poemas de Guilherme de Melo recitados por Vítor de Sousa, assim como o próprio autor em conversa com Carlos Pinto Coelho, há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.pt/2013/07/em-memoria-de-guilherme-de-melo-1931.html e clicar nos respectivos “play áudio”.
Jornalista, escritor e poeta português, Guilherme José de Melo nasceu na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), a 20 de Janeiro de
1931, e faleceu em Lisboa, a 29 de Junho de 2013. Fez os estudos liceais na cidade natal, ingressando no funcionalismo público que abandonou, aos vinte anos de idade, para iniciar a actividade de jornalista, primeiro no “Notícias da Tarde” (1952) e depois no “Notícias”, de Lourenço Marques (1952-1974), onde atinge o lugar de director-adjunto. Os seus primeiros poemas saíram, em 1949, no jornal “Itinerário”, de Lourenço Marques, continuando a colaborar com poesia e contos em diversos suplementos literários e revistas, tais como “Capricórnio”, de Lourenço Marques, “Paralelo 20”, da cidade da Beira, e “Colóquio/Letras”, de Lisboa. Entre 1956 a 1959, colaborou num programa de teatro radiofónico dirigido por Reinaldo Ferreira, no Rádio Clube de Moçambique, quer escrevendo peças originais, quer adaptando obras de outros autores, designadamente de Henrik Ibsen e de Federico Garcia Lorca. Foi como ficcionista que publicou os primeiros livros: “A Menina Elisa e Outros Contos” (1960), “A Estranha Aventura” (contos, 1961) e “As Raízes do Ódio” (romance, 1965). Neste último, a abordagem feita ao racismo gerou acesa polémica, acabando a PIDE por apreender a edição. Em 1969, publicou um trabalho de reportagem sobre a Guerra Colonial, que então decorria, sob o título de “Moçambique, Norte – Guerra e Paz”, que lhe valeu o Prémio Pêro Vaz de Caminha. Em Outubro de 1974, perante a convulsão em que Moçambique entrou, resolveu radicar-se em Lisboa, trabalhando no gabinete de imprensa do IARN – Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais e, a partir de Janeiro de 1976, como redactor do “Diário de Notícias”, onde se manteve até 31 de Dezembro de 1996, altura em que se aposentou. «O Almeida Santos telefona-me e dá-me duas hipóteses de emprego: ou chefe de redacção da ANOP ou redactor do “Diário de Notícias”. Escolhi ser redactor do “Diário de Notícias” e ele ficou muito admirado por eu ter decidido recomeçar por baixo.», confessou em 1998 numa entrevista concedida ao seu DN. O regresso à vida literária aconteceu com a publicação, em 1981, do romance “A Sombra dos Dias”, «uma autobiografia escrita na terceira pessoa», distinguida pelo júri do Prémio Literário Círculo de Leitores para obras inéditas, em que tratou com frontalidade a homossexualidade, temática continuada nos romances “Ainda Havia Sol” (1984) e “O Que Houver de Morrer” (1989). O regresso à temática africana deu-se com “Os Leões Não Dormem Esta Noite” (1989), biografia romanceada de Gungunhana, que lhe fora sugerida por Samora Machel, já presidente da República Popular de Moçambique, quando se voltaram a encontrar em 1984 (haviam-se conhecido em 1961, quando o escritor, na sequência de um acidente de viação, esteve internado num hospital onde Samora era um anónimo ajudante de enfermeiro). Da sua produção romanesca posterior sobressaem “Como Um Rio sem Pontes” (1992) e “As Vidas de Elisa Antunes” (1997), olhar cúmplice e irónico sobre uma Lisboa corroída pela desumanização. Embora os primeiros textos literários que publicou fossem poemas, foi já perto do fim da vida, que Guilherme de Melo se decidiu a publicar o seu primeiro e único livro de poesia, “A Raiz da Pele” (2011).
Bibliografia:
– A Menina Elisa e Outros Contos (contos), col. Textos Moçambicanos, Lourenço Marques: Associação dos Naturais de Moçambique, 1960
– A Estranha Aventura (contos), ilustrações de Jorge Garizo do Carmo, col. Prosadores de Moçambique, vol. 3, Beira, 1961
– As Raízes do Ódio (romance), Lisboa: Arcádia, 1965; Lisboa: Editorial Notícias, 1990
– Moçambique, Norte – Guerra e Paz (reportagem), Lourenço Marques: Minerva Central, 1969
– Menino Candulo, Senhor Comandante… (conto), Lourenço Marques: Emp. Moderna, 1974
– A Sombra dos Dias (romance), Lisboa: Bertrand, 1981; Lisboa: Notícias, 1985
– Ser Homossexual em Portugal (reportagem), col. Cadernos de Reportagem, vol. 1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, 1982
– Ainda Havia Sol (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1984
– Moçambique: Dez Anos Depois (reportagem), Lisboa: Editorial Notícias, 1985
– O Que Houver de Morrer (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
– Os Leões Não Dormem Esta Noite (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
– Como Um Rio sem Pontes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1992
– As Vidas de Elisa Antunes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1997
– O Homem que Odiava a Chuva e Outras Estórias Perversas (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 1999
– A Porta ao Lado (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 2001
– Gayvota: Um Olhar (por Dentro) sobre a Homossexualidade (ensaios), Lisboa: Editorial Notícias, 2002
– Crónicas de Bons Costumes (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 2004
– A Raiz da Pele (poesia), Montijo: Humanity’s Friends Books, 2011
Paralelamente à edição do livro “A Raiz da Pele”, o actor Vítor de Sousa gravou metade (vinte e sete) desses poemas num CD homónimo. Desse disco seleccionei uns quantos para aqui apresentar, em homenagem a Guilherme de Melo. É serviço público que o blogue “A Nossa Rádio” se orgulha de prestar aos seus leitores, mormente aos ouvintes da rádio pública, pois a Antena 1 (pelo menos) voltou a pecar, por omissão, na homenagem que lhe cabe render aos artistas e autores quando nos deixam.
Carlos Pinto Coelho, se cá estivesse, não teria certamente deixado de honrar a memória de Guilherme de Melo com quem, aliás, esteve duas vezes à conversa no programa “Agora… Acontece!”. Portanto, afigura-se de toda a oportunidade trazer esses fonogramas à luz do dia, ademais não sendo de somenos o proveito cultural que deles poderá tirar quem se der ao cuidado de ouvi-los.
“Agora… Acontece!” N.º 82, de 22-Mai-2000
Guilherme de Melo entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 13′:30”]
“Agora… Acontece!” N.º 334, de 04-Jul-2005
Eugénio Lisboa e Guilherme de Melo conversam com Carlos Pinto Coelho sobre o poeta Reinaldo Ferreira
Capa do CD “A Raiz da Pele”, de Vítor de Sousa (Ovação, 2011)
As receitas dos direitos de autor revertem a favor da Associação Sol (http://www.sol-criancas.pt/), por vontade expressa de Guilherme de Melo.
