EM MEMÓRIA DE GUILHERME DE MELO (1931-2013) – 2 – por Álvaro José Ferreira carlosloures21 de Julho de 201319 de Julho de 2013Geral Navegação de artigos PreviousNext DUALIDADE Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Metade do meu corpo é Marco António, outra metade – mistério! – é Cleópatra. Eu sou, ao mesmo tempo, o torvo Otelo e Desdémona que a tremer se entrega na fronteira da noite que amanhece. Dentro de mim há sempre o que domina, ao lado da metade que se oferece. GIRASSOL Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Havia a imensidão que há nas paisagens lunares. Havia o longo silêncio que escorre dos glaciares. Havia a desolação que há sobre a terra queimada. Havia o tenso mistério de uma freira emparedada. Havia a aspereza salgada que há num longínquo recife. Havia o cinzento frio que tem o céu em Cardiff. Havia o pávido assombro duma descida ao inferno. Havia a tristeza imensa de Veneza no inverno. Havia um grito sem voz suspenso no ar parado. Havia a face terrosa dum cigano esfaqueado. Havia a nudez marmórea duma Acrópole derruída. Havia o baço fulgor duma pupila sem vida. Havia o que tendo havido nunca mais voltara a haver. Havia a premonição das coisas por acontecer. E foi então que vieste, assim num esplendor, num clarão, como um girassol de fogo que irrompe, rasgando o chão. DORIAN GRAY Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Sou eu, inteiro, eu mesmo – ou o retrato? As rugas que não tenho e ele contém, a ironia amarga nos meus lábios feita cansaço fundo em sua boca, o engelhado dos meus dedos lisos, fio por fio nas suas mãos traçado, tudo afinal sou eu nele retratado. E olho no retrato do que sonhei. E vejo nele o mundo que vivi. O muito que odiei. Os corpos que abracei, tive e perdi. Olho o desejo, a raiva e o prazer, a lama, o céu, o nada, a volúpia a que, rindo, me entreguei. Olho-me olhando o tudo que assim fiz, tudo o que fui e quis, lucidamente frio nesse meu querer. Remorsos? E de quê? De ter vivido? Remorsos? Para quê – se o proibido é afinal estar vivo e não viver. LISBOA Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Quando vim de África faltava-me a lonjura, o som e o silêncio, o espaço. Quando vim de África faltava-me a distância onde o olhar se perde e vai e vem e volta e passeia sem peias, receio ou embaraço. Tudo é diferente na Lisboa que adoptei e me adoptou. Diferente o céu, o cheiro, a cor do mar, diferente o chão que piso, a chuva, a gente. Não há nas suas ruas o clarão das acácias a florir. Só pouco a pouco, lento, devagar, a fui de manso aprendendo a amar. Hoje sinto que a Lisboa que adoptei e me adoptou tem mais a ver com Cesário do que Eça. Nela mergulho o rosto como quem esconde a face que o sol esquenta entre os seios doces, maternais, da ama que a sorrir nos acalenta. A RAIZ DA PELE Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Guardo na raiz da pele os gritos, as emoções, os desesperos, os medos, a raiva, o ódio, a perfídia, os sonhos, as frustrações, as cicatrizes das feridas que a vida em mim foi abrindo, os mistérios, os segredos. Guardo na raiz da pele a verdade do que sou. Deixo que à flor da pele emerja a máscara, o sorriso, o jogo do gato-e-rato onde, estando, nunca estou. O QUARTO FECHADO Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Pintei de verde o teu barco, pus-lhe um mastro e uma vela. Soltei-o por sobre as águas, fiquei a vê-lo na margem. Desenhei nuvens, bonecos, nas paredes do teu quarto. Enchi de sol a janela, fiquei olhando, entre a porta. Cobri de relva os canteiros que tracei em frente à casa. Trouxe-te um cachorro branco, fiquei sentado a afagá-lo. Peguei num livro de histórias quando a tarde foi caindo. Debruçado para o teu berço fiquei a lê-lo calado. Nada faltou ou esqueci, em tudo pensei e trouxe: brinquedos, livros, canções, o riso que alegre riste; apenas faltaste tu, o filho que não existe. VELHICE Poema de Guilherme de Melo (in “A Raiz da Pele”, Humanity’s Friends Books, 2011) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD “A Raiz da Pele”, Ovação, 2011) Velhice, agora os dias são imensos, são longos e vazios. Agora os dias são pesados, arrastam-se, são frios. Quieto, em meu lugar. Passeio por entre as cruzes dos mortos que guardo em mim. Falo com eles em silêncio. Esquecido, à espera do fim. Outubro de 2008 * Guitarra portuguesa – Luísa Amaro Percussão – Marta Ribeiro Gravado nos Estúdios Gravisom, Lisboa Captação áudio – Gino Vitali URL: http://www.ovacao.pt/compra/vitor-de-sousa-a-raiz-da-pele-52226 Capa do livro “A Raiz da Pele”, de Guilherme de Melo (Humanity’s Friends Books, 2011) 8% do preço de capa reverte para a Associação Sol (http://www.sol-criancas.pt/) Share this: Share on Facebook (Opens in new window) Facebook Share on X (Opens in new window) X Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp Email a link to a friend (Opens in new window) Email More Print (Opens in new window) Print Like this:Like Loading...