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A ILHA DOS NÁUFRAGOS – Sobre as teses de Louis Even

2.  O económico

Quando falamos de economia, muitos são tentados a pensar na poupança. Não dizemos nós muitas vezes: poupem o vosso dinheiro, economizem as vossas forças? E nestas ocasiões, não queremos nós claramente dizer: poupem, não gastem?

Mesmo assim, também não ouvimos nós nas pessoas muitas vezes a a seguinte expressão: esta é a economia que não é económica! O que prova que, sem ser dito com as subtilezas do dicionário, as pessoas já aceitam e já dão um sentido mais extenso à palavra economia.

Depois, as crianças do sexto ano não começam já elas o estudo da economia doméstica? Da economia doméstica à economia política, não é mais do que uma questão de extensão.

Duas origens gregas: Oikia, casa; Nomos, regra.

Trata-se, portanto, da boa regulamentação de uma casa, da ordem no uso dos bens da casa.

.Economia doméstica: boa conduta das questões domésticas da casa.

Economia política: a boa conduta dos assuntos da grande casa comum que é a nação.

Mas porquê “boa conduta”? Quando é que a conduta dos negócios da pequena ou da casa grande, da família ou da nação, pode ser considerada boa ?Quando se alcança o fim pretendido.

Uma coisa é boa quando se alcançam os resultados para os quais foi criada.

 

Fim do económico

O homem envolve-se em diversas actividades e prossegue fins diversos, de diferentes ordens e de várias áreas.

Existem, por exemplo, as normais actividades humanas que afectam as suas relações com o seu fim último.

As actividades culturais dizem respeito ao seu desenvolvimento intelectual, ao desenvolvimento do seu pensamento, ao moldar do seu caracter.

Nas suas relações com o bem geral da sociedade, o homem envolve-se e empenha-se em actividades sociais.

As actividades económicas estão ligadas com a riqueza temporal. Nas suas actividades económicas, o homem prossegue a satisfação das suas necessidades temporais.

O objectivo, o fim das actividades económicas, por conseguinte, é pois a adaptação dos bens terrenos para a satisfação das necessidades temporais do homem. E a economia atinge o seu fim quando esta coloca os bens terrestres ao serviço das necessidades humanas.

As necessidades temporais do homem são aquelas que o acompanham desde o berço até à cova. Há as necessidades essenciais assim como há as menos necessárias.

A fome, a sede, o mau tempo, a fadiga, a doença, a ignorância, criam para o homem necessidades como comer, beber, roupa, abrigo, aquecimento, refrescar, relaxar, cuidar,  aprender.

Tantas necessidades.

Alimentos, bebidas, roupas, abrigos, madeira, carvão, água, uma cama, remédios, o ensino de um professor, livros – tantos bens para vir em auxílio destas necessidades.

Juntar os bens às  necessidades – este é o objectivo, a finalidade da vida económica

Se assim fizermos, a vida económica atinge o seu objectivo. Se não o faz ou se o faz mal e incompletamente, a vida económica não alcança a sua finalidade ou fá-lo de forma muito inacabada, imperfeita.

Juntar os bens às necessidades. Não somente colocar uns em face dos outros.

Em termos brutos, portanto, poder-se-ia dizer que a economia vai bem, que ela atinge o seu fim, quando ela bem ordenada para que os alimentos entrem no estômago de quem está com fome; para que as roupas cubram os ombros de quem tem frio ; para que os sapatos venham para os pés que estão nus; para que um bom fogo aqueça a casa no inverno; para garantir que os pacientes recebam a visita do médico; para que professores e estudantes se reencontrem.

Este é o campo do económico. Um campo bem temporal. O económico tem um fim em si-mesmo: satisfazer as necessidades dos homens. Que o homem possa comer quando está com fome: isso não é a finalidade última do homem; não, isto é um meio para melhor e satisfazer a sua finalidade última.

Mas se o fim do económico é apenas um meio relativamente a um fim último; se é apenas um fim intermediário na ordem geral, é mesmo assim um fim próprio para o económico enquanto tal.

E quando o económico atinge esse fim próprio, quando permite que os bens se juntem às necessidades, é perfeito. Não perguntemos mais. Mas perguntemos por tudo isto. É ao económico que cabe satisfazer tudo isto.

 

Moral e economia

 

Não devemos pedir ao económico para que atinja uma finalidade moral, nem à moral que atinja esta um fim económico. Isto seria tão desordenado como querer ir de Montreal para Vancouver no Transpacific, ou de Nova Iorque ao Havre de caminho-de-ferro.

Um homem com fome não matará a sua fome por estar a rezar o Rosário com ele nas suas mãos, mas tendo comida para comer. Está na ordem das coisas. É o Criador que o quis assim e que ele não derroga senão por milagre, a ignorar a ordem estabelecida. Só Ele tem o direito de quebrar esta ordem. Para saciar a fome do ser humano é, pois, o económico que deve intervir, não a moral.

Da mesma forma que um homem que tem a consciência suja não a purifica com uma boa refeição ou com copiosas libações. É do confessionário que ele precisa. É aqui a função da religião intervir : a actividade moral, não a actividade económica.

Sem dúvida, a moral deve acompanhar todos os actos do homem, mesmo na esfera económica. Mas não para substituir o económico. – deve orientar nas escolhas dos objectivos e garantir a legitimidade dos meios; mas ele não deve realizar o que a economia deve executar.

Quando, portanto, o económico não realizar a sua finalidade, quando as coisas permanecem nas lojas ou no nada e as necessidades permanecem nas casas, procuremos a causa dessa crueldade na ordem económica.

Culpemos obviamente aqueles que perturbam a ordem económica, ou aqueles que, tendo como missão a responsabilidade da sua execução a deixam na anarquia. Eles, ao não cumprirem com o seu dever, certamente exercem a sua consciência e caem sob a sanção da moral.

Como o que, se duas coisas são distintas, acontece que ambas se referem ao mesmo homem e que, se uma é imolada, a outra sofre. O homem tem o dever moral de assegurar que a ordem económica, o social temporal, atinja o seu próprio fim.

Assim, se bem que o económico seja responsável apenas pela satisfação das necessidades temporais dos homens, a importância da boa ordem económica tem sido enfatizada repetidamente por aqueles que estão encarregados das almas. De resto, é normalmente um mínimo de bens temporais que é necessário a fim de facilitar a prática da virtude.

A ordem, a ordem por todo o lado. A ordem na hierarquia dos fins, a ordem na subordinação dos meios.

Trabalhar a terra, coisas terrenas servem para as necessidades temporais dos homens, isto é precisamente o fim próprio das actividades económicas do ser humano: aa adaptação dos bens às necessidades.

Características de uma economia humana

 

Uma vez que os homens são seres que, por natureza, vivem em sociedade, uma economia realmente humana deve ser social. Estadeve servir a todos os membros da sociedade.

Uma organização económica que permita a adaptação dos bens terrenos às necessidades de alguns apenas, deixando os outros à míngua certamente que não seria social, não seria então humana.

Se os membros da sociedade são praticamente proibidos de usufruirem dos benefícios económicos da sociedade, uma vez que esta não lhos consente, senão de forma muito relutante, e de modo a que a tensão criada não seja suficiente para desencadear o clamor contra esse estado de coisas, tratando-os mais como inimigos a acalmar do que como membros de direito, a economia não é humana, é sim, uma economia monstruosa. É uma economia dos lobos.

Na selva, é a luta pela vida, nela prevalece o forte e o fraco desaparece. Uma tal lei é inaceitável entre os homens, seres inteligentes e sociais. A luta pela vida, nos seres humanos, só  pode ser entendida com uma luta colectiva contra inimigos comuns, contra os animais da floresta selvagem, contra a ignorância, contra os elementos adversos. Uma economia verdadeiramente humana deve basear-se na cooperação pela vida.

Por outro lado, os seres humanos, se eles são sociais, também são seres livres. E se uma economia humana deve assegurar a satisfação das necessidades básicas de todas as pessoas, deverá fazê-lo sem impedir o livre desenvolvimento do indivíduo.

A economia não deve violentar nem a verdadeira liberdade nem a sociabilidade. Uma sociedade de homens não é um rebanho. Uma economia que condiciona à arregimentação o direito de viver não é uma economia humana, ela está contra a natureza do homem.

Na escolha dos meios para restabelecer uma economia desordenada, portanto, escolheremos aqueles que mais respeitam a liberdade do homem.

Hierarquização

Se o objectivo da economia é um objectivo temporal, é também uma finalidade sociala alcançar socialmente. Se é para satisfazer as necessidades temporais do homem, ela deve satisfazer as necessidades temporais de todos os homens.

Se o objectivo da economia é temporal, portanto, também uma finalidade social, para se alcançar socialmente.Se  deve satisfazer as necessidades  temporaisdo homem, esta deve satisfazer às necessidades temporais  de todos os homens.

E isso aplica-se a todos os níveis da hierarquia social, segundo as respectivas jurisdições.

Se se trata da família, a economia doméstica deve procurar a satisfação das necessidades de todos os membros da família.

Mas uma boa organização da sociedade vigia para que se garanta que essa satisfação das necessidades temporais de todos é  realizada o mais completamente quanto possível no círculo das organizações menores, das organizações que mais imediatamente estão em contacto com os indivíduos.

Em vez disso, portanto, em vez de se substituir à família, para ajudar os indigentes, o Estado será mais sábio se legislasse e organizasse a ordem económica de tal modo que a família possa responder ela própria, tão perfeitamente quanto possível, às necessidades de todos os membros que a compõem.

Esta é a filosofia do Crédito Social. É ao mesmo tempo mais conforme com a verdadeira democracia.

O Crédito Social é descentralizador nas finanças. A centralização, a estatização são a negação da democracia.

O fim social e bem humano é resumido na seguinte frase de Quadragesimoanno :

“A ordem económica e social será constituída de forma saudável e atingirá a sua finalidade então e apenas se fornecer a todos e a cada um dos seus membros todos os bens que os recursos da natureza e da indústria bem como a organização realmente social da vida económica, tem os meios para lhos  poderem proporcionar.” 

Todos ea  cada um. Todos os bens que podem obter da natureza e da indústria

A finalidade do económico é, portanto, a satisfação das necessidades de todos os consumidores. A finalidade está no consumo, e produção é apenas um meio.

Fazer parar a produção económica, é mutilá-la.

Não lhe exigirem senão a satisfação para uma parte da sociedade, enquanto que os bens se amontoam nos armazéns, é irracional e é igualmente desumano.

Abandoná-la ao acaso, ao jogo das forças frequentemente em conflito, é capitular vergonhosamente e é entregar  o mundo inteiro para os dentes dos mais fortes.

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