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JOSÉ FONTANA – 1 “Histórias de Suicidios Famosos em Portugal” – por José Brandão

Giuseppe Silo Domenico Fontana — dito José Fontana em português — filho de Maria Clara Bertrand Bonardelli e deImagem1 Giovanni Battista Fontana, nasceu em Cablio (Suíça) a 28 de Outubro de 1840 e morreu em Lisboa a 2 de Setembro de 1876, tendo conservado sempre a nacionalidade suíça, como consta no registo do funeral, realizado no Cemitério Ocidental de Lisboa (Prazeres).

Com a profissão de encadernador e depois caixeiro de livraria, entrou para o serviço da Livraria Bertrand, da qual chegou a ser sócio.

Autodidacta, extraordinariamente culto, interessado nos problemas sociais da época, acompanhou a criação das primeiras associações operárias portuguesas e foi elemento decisivo para a criação do Partido Socialista em Portugal, no seguimento das resoluções do Congresso da Internacional Operária realizado em Haia e que preconizavam a criação de partidos operários nacionais.

Muito novo ainda abandonara o seu país e viera para Portugal. Em rapaz fizera tudo o que todos fazem: namoricara, comera, bebera… Depois, pouco a pouco, à sua vivacidade enérgica aliou-se aquele tom sombrio de reflexão, que o fizera tal qual o veremos mais tarde.

Atribui-se-lhe actividades revolucionárias na terra de origem, mas desconhece-se todavia a data da sua entrada em Portugal, para onde emigrou de forma a fugir às perseguições policiais de que por certo era alvo.

 Em Portugal, começou por frequentar o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, (CPMCL) aí propagandeando as teorias socialistas, nomeadamente as de Proudhon, tanto em voga na época.

Aquando da chegada a Lisboa dos delegados do Conselho Confederal Espanhol da Associação Internacional dos Trabalhadores, que se dirigiram ao CPMCL para contactarem os mais conscientes militantes desta agremiação, José Fontana destaca-se desde logo como figura de grande prestígio e audiência na massa operária do Centro Promotor.

Mas a fase federal-socializante do Centro encontra algumas resistências por parte dos republicanos, o que faz com que este se dissolva para dar lugar ao aparecimento de duas outras associações, ambas co-fundadas por José Fontana: Associação Protectora do Trabalho Nacional e, logo a seguir, aquela em que José Fontana mais se empenhou, a Fraternidade Operária, em Janeiro de 1872.

Por esta época, José Fontana liga-se a um grupo de intelectuais de que fazem parte, entre outros, Antero de Quental, Jaime Batalha Reis, Eça de Queirós, Adolfo Coelho, etc., que estão na origem das Conferências do Casino Lisbonense, das quais ele, Fontana, foi a alma no que tocou à agitação e propaganda.

As Conferências do Casino podem considerar-se um manifesto de geração. Denominam-se assim por terem tido lugar numa sala alugada do Casino Lisbonense e foram uma série de cinco palestras realizadas em Lisboa no ano de 1871 pelo grupo do Cenáculo formado, por sua vez, pelas mesmas pessoas, mais ou menos, que constituem a Geração de 70.

Um grupo de jovens intelectuais do final do século XIX, liderado ideologicamente por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram parte alguns dos maiores escritores da História da Literatura portuguesa, como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Téofilo Braga e Guerra Junqueiro, formou o essencial da chamada geração de 70.

Iluminados por ideias inovadoras que beberam da cultura europeia, sobretudo da francesa, irão opor-se a um governo monárquico cada vez mais contestado nos finais do século. Racionalistas, herdeiros do positivismo de Comte, do idealismo de Hegel e do socialismo utópico de Proudhon e Saint-Simon, protagonizaram uma autêntica revolução cultural no nosso País, agitando consciências e poderes estabelecidos.

Os movimentos do Fontismo e da Regeneração acentuaram os desequilíbrios económicos crónicos da sociedade portuguesa. As dívidas ao estrangeiro contraídas para pagar as infra-estruturas, agravam a situação económica (no fim da Regeneração o País estava na falência); o falseamento das instituições, a astúcia dos políticos, a fraude e a corrupção do poder político; são os condimentos que contribuem para uma degradação acentuada do estado da Nação. Acresce ao panorama o predomínio da mentalidade rural sobre a urbana; a indústria moderna não se desenvolveu, a concorrência estrangeira derrubou a fraca indústria portuguesa e nos campos a situação era aflitiva, com o consequente aumento de emigração, sobretudo para o Brasil.

Nas Artes e nas Letras persistiu a falta de apoio que agravou as difíceis condições de vida dos Artistas. Os escritores precisavam da protecção do Estado, e este oferecia importantes cargos no Governo em troca do “controlo da pena” – e daqui surge a chamada “literatura oficial”.

É contra todas estas condições (que contrastavam com o avanço no resto da Europa) que surge a Geração de 70, que, por volta de 1865, se insurge sobretudo contra o exagero caduco e balofo do gosto ultra-romântico, contra o monopólio de António Feliciano de Castilho.

(Continua)

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