(Conclusão)
Naqueles tempos a Havas mandava de lá (de Paris) uns telegramas fulminantes e terríveis, que faziam arrepiar os coiros aos paquidermes da ordem. Mulheres desgrenhadas, de
rosto feroz e incendiado de cólera — umas megeras, espécie de bruxas malditas de alguns dos contos alemães, segundo diziam as gazetas indígenas — andaram por lá deitando petróleo pelas ventas. E, contudo, as francesas, as boas parisienses, essas endiabradas que me quebrariam a pena — tais elas são, as gaiatas! —, nunca tinham feito mais do que deitar por terra a fortuna de algum banqueiro baboso e apalermado, ou então cometem um desses actos de dedicação heróica que são o assombro da história.
rosto feroz e incendiado de cólera — umas megeras, espécie de bruxas malditas de alguns dos contos alemães, segundo diziam as gazetas indígenas — andaram por lá deitando petróleo pelas ventas. E, contudo, as francesas, as boas parisienses, essas endiabradas que me quebrariam a pena — tais elas são, as gaiatas! —, nunca tinham feito mais do que deitar por terra a fortuna de algum banqueiro baboso e apalermado, ou então cometem um desses actos de dedicação heróica que são o assombro da história.À porta da Havanesa comentava-se isto tudo que Eça de Queirós tão bem desenhou. E olhava-se com susto para os comunistas da voga, uns leões que se davam ao chique de revolucionarismo retórico! Imagine-se como não seria visto Fontana e os mais que tinham a coragem das convicções e a firmeza da consciência! Contudo, no Centro Promotor,
Fontana despertara entusiasmo, agrupando-se à sua volta toda a mocidade lúcida daquela agremiação prestante. Em 1872 estava iniciado na Maçonaria, figurando hoje entre os nomes ilustres da mesma. Poucos deixaram obra escrita tão significativa. O Quarto Estado de Fontana merece uma referência à parte. Das conspirações de 1848, Fontana retira uma lição: a do valor da moderação e do reformismo. Fontana recusa claramente a tradição revolucionária. A tese central é a de que os operários só alcançariam benefícios quando fossem eles próprios a organizar a luta. Os progressos «postiços» não tinham garantias de estabilidade. Na opinião de Fontana, isto não significava que o movimento operário devesse excluir a colaboração de outras classes: significava que a luta teria de ser feita segundo os interesses da classe operária.
Para ele, as revoluções criavam o receio da desordem, facilitando assim o advento das ditaduras. Portugal deveria dar-se por feliz por não ter assistido ao «perigoso período de fermentação e utopia sectária» que correspondera a esses anos. Tinha por conseguinte a possibilidade de aprender com a Europa passando directamente à fase do associativismo sem conhecer o ciclo revolução-repressão. Maduros e sensatos, os operários não desejavam a revolução, mas antes «criar para si, dentro do mundo actual, condições mais favoráveis e ir assim correndo lentamente para a gradual transformação das imperfeitas instituições existentes». O fim, a emancipação dos trabalhadores, fornecia o meio a utilizar, as associações. Seria através destas e não com golpes e barricadas que os trabalhadores melhorariam a sua situação.
Fontana contesta a nascente civilização capitalista e o regime de salariato. Ao contrário de Marx, Fontana não olhava ambiguamente os progressos que a burguesia estava a dar ao mundo: olhava-os horrorizado. A nova sociedade era incompatível com o que ele queria. As suas teses correspondiam ao que pensavam os artesões ameaçados pela degradação dos ofícios: o progresso era uma catástrofe. Enquanto a linha do partido fosse esta, o sucesso do P. S. estava garantido. José Fontana ainda trabalhou no Partido Socialista, mas a doença não permitiu que os seus esforços fossem de peso. Suicidou-se em 2 de Setembro de 1876 numa cave da Livraria Bertrand.
O seu funeral, civil como era de esperar, foi objecto de grandiosa manifestação. Cerca de 600 pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, que saiu da Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa, até ao cemitério dos Prazeres, sendo aí esperado por 500 pessoas. O caixão, sem pano, levava em cima uma coroa de perpétuas, foi depositado no coval nº 4278, no meio da consternação geral. Na ocasião, Eduardo Maia e Azedo Gneco proferiram discursos alusivos à vida e obra de José Fontana. Tinha 36 anos. Tal foi a vida de José Fontana, um dos fundadores do Partido Socialista em Portugal.
