
II
Cavou-se um abismo entre nós e a retaguarda. Aqueles que dormem todas as noites na sua cama, sejam eles simples escribas da brigada a dois passos ou funcionários da repartição das regiões paradisíacas das bases ou dos grandes quartéis-generais, consideramo-los como umas criaturas desprezíveis. Quando ouvimos passar muito alto, a vários mil pés de altura, aqueles projécteis de artilharia grossa, a que o Folgadinho chama carradas de lenha, todos nós nos dog outs esfregamos as mãos de contentes. Estamos a ver a retaguarda em calças pardas, aqueles maraus, que só podem morrer por infeliz acaso, julgando-se com uma simples granada tão expostos como os que vivem por um acaso feliz. E rimos malvadamente, nós a quem o Fritz serve diariamente algumas dezenas de morteiros de todo o tamanho, e bastos milhares de balas de metralhadora. Por isso um papel que vem da brigada é acolhido com ironia, uma circular da divisão com impropérios, e uma ordem do Q. G. com a mais descabelada das irreverências. A malta das trincheiras vinga-se e ̶ coitada dela! ̶ não tem senão o seu rancor para se vingar. Ainda se perdoa um pouco àqueles que vêm de quando em quando, de botas engraxadas e nas horas calmas da manhã, bater-nos no ombro e perguntar-nos: “Então como vai isto?” Fazemos-lhes o favor de os receber, de lhes impingir alguns palões, de nos rir nas costas deles. Mas os outros, os que não vêm nunca, os que só conhecemos pela assinatura que põem em papéis escritos à máquina, para esses não há na nossa alma de exilados, de sacrificados, desdém que baste. Quanto aos camaradas de Portugal, esses não existem. São vermes desprezíveis, que não chegam a valer o rato fedorento que galopa pelos cantos a emboscar-se nos seus esconderijos.
Os dias de trincheira não se contam. Há a aluminar-nos um sol pálido, um sol triste e, porque nos vemos, porque nos sentimos perto uns dos outros, por que conseguimos conversar, porque dormimos a prestações, agora uma hora, dali a pouco outra meia, os dias passam e não se contam. O que vale são as noites, aquelas que os da retaguarda dormem de pyjama em camas fofas e altas. A noite é a nossa preocupação. Durante ela é que temos tudo a recear. A sombra que nos envolve entrega-nos a nós mesmos, isola-nos, não conhecemos ninguém, cruzamos sombras sobre as quais nem sempre podemos apontar o feixe minúsculo da nossa lâmpada eléctrica, todos os projécteis são traiçoeiros, toda a nossa ciência de referenciação desaparece. O boche, cujos poisos conhecemos de dia, muda de lugar; não sabemos onde está e donde pode vir, já não toureamos os seus morteiros como em plena luz. A noite é a negra aventura. De noite chegam-nos estranhos: os pioneiros, os engenhocas, partidos do batalhão que viemos render e que nos renderá dentro de alguns dias. Toda essa gente vem cavar, vem trabalhar, ajudar-nos a pôr arame, a consertar as trincheiras, a levantar para peitos que amanhã o boche atirará abaixo para que não falte o trabalho e a canseira às Danaides da primeira linha. E é em plena escuridão, um formigar soturno de gente que atira às sentinelas de reconhecimento senhas e contra-senhas singulares, a quem se devia perguntar: “Bernardino?” e devia responder: “Braga!”; a quem se diz: “Pão para cinco!”, e murmura: “Presunto e marmelada!”.

