O MEDO*, POR ANDRÉ BRUN

(1881 – 1926)
(1881 – 1926)

II

Conheci nesta guerra – em matéria de medo – duas categorias de indivíduos: uns que tinham algum medo sempre, e outros que tinham muito medo às vezes. Os primeiros eram os poltrões, os outros os valentes: Aqueles tinham medo quando não havia a mínima urgência disso: haviam tido medo em Lisboa, teriam medo em Boulogne ou nos quartéis-generais, e tinham medo nos dias bonitos, medo nas noites escuras, medo pela manhã, medo no intervalo das refeições, medo acordados, medo a dormir. Levavam a vida cismando que podiam morrer nesse dia ou no seguinte, ou no mês que estava para entrar. Lembravam-se de tudo: da sua meninice, das graças que diziam quando eram pequenos, da falta que fariam à família e do desgosto que havia de ter ao saber da notícia do passamento aquele bom padrinho entrevado que tinham deixado em Portugal. Olhavam para o espelho e diziam: – «Coitado! Mesmo na flor da idade!» tendo sido forçados a vir para a guerra e não tendo podido furtar-se a ela, chegaram a convencer-se de que ela não passava de uma questão pessoal e lhes era movida directamente. Nada os interessava senão a integridade do seu esqueleto. Bem se lhes dava quem fosse o vencedor, e viviam no sonho de uns sapatos de ourelo que tinham deixado ficar aos pés da cama.

Felizmente esta guerra da trincha tem as suas acalmias e não mantém a violência constante que lhe supõem certos paisanos, imaginando que a artilharia troa de pela manhã à noite, e que nos cai uma granada em volta todos os cinco minutos. O medroso também vira a guerra assim.  Afinal há sempre umas horas para dormir, uns dias para descansar e ouvir tocar o gramofone, escrever postais ilustrados à família e invejar com rancor aqueles bandidos que estão lá para a retaguarda. A obsessão tem as suas folgas e o medroso os seus sorrisos. Sofre também a acção do ambiente, que tem um moral médico razoável. O medroso chega, fora da trincha, a gracejar com a guerra e nunca perde afinal a esperança de conseguir escapulir-se um dia. Não contem com ele para procurar o perigo, para andar pelos sítios mal frequentados por granadas e para que vá voluntário às patrulhas. Numa hora grave será um empecilho, e há que contar com a sua acção negativa. Fora disso é uma excelente pessoa, e em geral joga bem às cartas se é oficial, tem jeito para polir os cabedais se é soldado, e tem uma bonita letra se é sargento. Ele mesmo explica o seu caso: – «Não nasci para estas cousas…» «Estas cousas» é o morrer de repente.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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